Doenças neurodegenerativas

Disautonomias nos Parkinsonismos: quando o sistema nervoso autônomo também adoece

A disautonomia nos parkinsonismos afeta pressão arterial, intestino, bexiga, sudorese e função sexual. Entenda os sintomas, a diferença entre doença de Parkinson e atrofia de múltiplos sistemas e quando procurar avaliação neurológica.

Disautonomias nos Parkinsonismos: quando o sistema nervoso autônomo também adoece
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
15 min de leitura10 de junho de 2026
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Quando pensamos em parkinsonismo, geralmente lembramos de tremor, lentidão dos movimentos, rigidez e alterações da marcha.

Mas existe uma dimensão menos conhecida — e extremamente importante — dessas doenças: o funcionamento automático do organismo.

Pressão arterial, frequência cardíaca, funcionamento intestinal, bexiga, sudorese, temperatura corporal e função sexual dependem, em grande parte, do sistema nervoso autônomo.

Quando esse sistema é comprometido, surgem as chamadas disautonomias.

Nos pacientes com doença de Parkinson e outros parkinsonismos, a disautonomia pode ser apenas um sintoma associado à doença, mas também pode fornecer pistas importantes sobre o diagnóstico, a evolução e até sobre qual síndrome neurodegenerativa está por trás do quadro.

O que é disautonomia?

Disautonomia é o termo utilizado para descrever alterações do funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável por controlar funções que normalmente acontecem de maneira involuntária.

Entre elas estão:

  • controle da pressão arterial;
  • frequência cardíaca;
  • funcionamento do intestino;
  • controle da bexiga;
  • sudorese;
  • regulação da temperatura;
  • função sexual;
  • adaptação do organismo ao exercício e à mudança de posição.

Nos parkinsonismos, essas alterações podem aparecer muito antes de o paciente perceber uma dificuldade motora importante.

A disautonomia, portanto, não deve ser vista simplesmente como uma consequência tardia da doença. Em determinados pacientes, ela pode fazer parte das manifestações iniciais.

Quais são os principais sintomas?

A manifestação mais conhecida é a hipotensão ortostática, quando a pressão arterial cai após a pessoa se levantar.

O paciente pode apresentar:

  • tontura ao levantar;
  • sensação de desmaio;
  • visão turva;
  • fraqueza;
  • fadiga;
  • dificuldade para caminhar após permanecer em pé;
  • lentificação do pensamento;
  • eventualmente, síncope.

A hipotensão ortostática pode ser particularmente problemática porque aumenta o risco de quedas.

Estudos recentes mostram que a disfunção cardiovascular autonômica pode ocorrer desde fases relativamente precoces da doença de Parkinson e também pode aparecer ainda no período pré-motor.

Mas a pressão baixa não é a única manifestação

O sistema nervoso autônomo controla diversos órgãos. Por isso, a apresentação clínica pode ser bastante variada.

Intestino

A constipação é extremamente frequente.

O paciente pode apresentar:

  • evacuações pouco frequentes;
  • fezes endurecidas;
  • esforço excessivo para evacuar;
  • sensação de evacuação incompleta;
  • distensão abdominal.

Em alguns pacientes, a constipação pode aparecer anos antes dos sintomas motores da doença de Parkinson, fazendo parte da chamada fase prodrômica.

Bexiga

São comuns:

  • urgência urinária;
  • aumento da frequência urinária;
  • noctúria;
  • incontinência;
  • dificuldade para iniciar a micção;
  • sensação de esvaziamento incompleto.

Alterações urinárias importantes merecem investigação porque podem ter diferentes causas e, em determinados contextos, ajudar na diferenciação entre síndromes parkinsonianas.

Função sexual

Disfunção erétil, redução da libido e outras alterações sexuais podem ocorrer como parte da disautonomia.

Esse é um sintoma frequentemente subnotificado, pois muitos pacientes não o mencionam espontaneamente durante a consulta.

Sudorese e temperatura corporal

Alguns pacientes apresentam alterações da transpiração, intolerância ao calor ou dificuldade de adaptação às mudanças de temperatura.

A redução da sudorese pode ser particularmente evidente em determinados parkinsonismos atípicos.

Salivação excessiva

A sialorreia é outro sintoma frequente.

É importante compreender que, muitas vezes, o problema não é simplesmente a produção excessiva de saliva. A dificuldade de deglutição automática e a redução da frequência de deglutição podem fazer com que a saliva se acumule na boca.

Em casos selecionados, a toxina botulínica pode ser utilizada como parte do tratamento.

Por que a hipotensão ortostática é tão importante?

A pressão arterial precisa se adaptar rapidamente quando passamos da posição deitada ou sentada para a posição em pé.

Em condições normais, o organismo aumenta a atividade simpática, contrai os vasos sanguíneos e realiza ajustes cardiovasculares para impedir que a pressão caia significativamente.

Na disautonomia neurogênica, esse mecanismo pode falhar.

O resultado é uma queda da pressão arterial ao ficar em pé.

O diagnóstico começa com algo simples: medir a pressão arterial e a frequência cardíaca deitado e depois em pé.

Dependendo da situação clínica, podem ser necessários testes autonômicos mais específicos.

A avaliação autonômica pode ajudar tanto a reconhecer a presença do problema quanto a orientar o tratamento e, em determinados casos, contribuir para o diagnóstico diferencial entre diferentes parkinsonismos.

Um detalhe importante: pressão baixa de dia e pressão alta à noite

Um dos aspectos mais interessantes da disautonomia é que o paciente pode apresentar hipotensão quando está em pé e hipertensão quando está deitado.

Isso parece contraditório, mas não é.

A perda da capacidade normal de regular a pressão arterial pode produzir uma grande variabilidade pressórica.

Assim, o paciente pode apresentar tontura durante o dia ao permanecer em pé e, simultaneamente, pressão elevada quando está deitado, inclusive durante a noite.

Essa situação precisa ser reconhecida porque algumas medidas utilizadas para tratar a hipotensão ortostática podem piorar a hipertensão em decúbito.

Disautonomia na doença de Parkinson

A disautonomia é uma manifestação não motora importante da doença de Parkinson.

Ela pode comprometer diferentes sistemas:

Cardiovascular → hipotensão ortostática e alterações da pressão arterial.

Gastrointestinal → constipação e alterações da motilidade.

Urogenital → urgência urinária, noctúria, alterações do esvaziamento vesical e disfunção sexual.

Termorregulatório → alterações da sudorese e da regulação da temperatura.

Orofaríngeo → sialorreia e alterações da deglutição.

A literatura demonstra que essas manifestações são frequentes e podem ter impacto significativo na qualidade de vida.

Quando a disautonomia faz pensar em outro parkinsonismo?

Esse é um dos pontos mais importantes da avaliação neurológica.

Nem todo paciente com parkinsonismo e disautonomia tem simplesmente doença de Parkinson.

Quando a falência autonômica é muito precoce, intensa ou desproporcional aos sintomas motores, é necessário considerar outras síndromes neurodegenerativas.

Uma das principais possibilidades é a atrofia de múltiplos sistemas (AMS).

A AMS é uma doença neurodegenerativa na qual podem coexistir:

  • parkinsonismo;
  • disfunção autonômica;
  • alterações cerebelares;
  • alterações da marcha e do equilíbrio.

A presença de falência autonômica associada a parkinsonismo com pouca resposta à levodopa é uma das combinações clínicas que pode levantar a suspeita diagnóstica de AMS.

Parkinsonismo + disautonomia: a cronologia importa

Uma das perguntas mais importantes na consulta neurológica é:

"Quando começaram os sintomas autonômicos em relação aos sintomas motores?"

Imagine dois pacientes.

Paciente 1

Apresenta doença de Parkinson típica há vários anos e, progressivamente, desenvolve constipação, sintomas urinários e hipotensão ortostática.

Esse cenário pode ser compatível com a evolução da própria doença de Parkinson.

Paciente 2

Apresenta inicialmente dificuldade importante para controlar a pressão ao ficar em pé, disfunção urinária significativa e disfunção sexual. Pouco tempo depois surgem parkinsonismo, instabilidade postural e pouca resposta à levodopa.

Nesse contexto, a possibilidade de um parkinsonismo atípico, especialmente AMS, precisa ser cuidadosamente investigada.

A cronologia dos sintomas é uma das ferramentas mais importantes do diagnóstico diferencial.

O que diferencia a disautonomia da doença de Parkinson da AMS?

Não existe um único sintoma capaz de estabelecer essa diferença.

A avaliação é clínica e deve considerar a combinação de vários elementos.

Na doença de Parkinson, manifestações autonômicas são comuns e podem ocorrer durante a evolução da doença.

Na AMS, entretanto, a disautonomia tende a assumir maior importância clínica e pode surgir muito cedo, acompanhada de alterações motoras características.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • hipotensão ortostática neurogênica importante;
  • retenção urinária ou grande resíduo pós-miccional;
  • incontinência urinária importante;
  • disfunção erétil precoce;
  • parkinsonismo pouco responsivo à levodopa;
  • ataxia cerebelar;
  • progressão relativamente rápida;
  • instabilidade postural precoce.

Nenhum desses achados isoladamente estabelece o diagnóstico. O conjunto clínico é que direciona a investigação.

Como investigar a disautonomia?

A investigação começa pela história clínica detalhada.

Perguntas simples podem revelar sintomas que o paciente nunca havia associado à doença neurológica.

A avaliação pode incluir:

1. Pressão arterial e frequência cardíaca

A comparação entre a posição deitada e em pé pode revelar hipotensão ortostática.

2. Diário de pressão arterial

Em determinados pacientes, medir a pressão em diferentes horários pode demonstrar padrões que não aparecem durante uma única consulta.

3. Avaliação urológica

Pode ser necessária quando há urgência, retenção, incontinência ou suspeita de disfunção importante do esvaziamento vesical.

4. Avaliação gastrointestinal

Constipação persistente pode exigir investigação e tratamento específico.

5. Testes autonômicos

Dependendo do caso, podem ser utilizados exames especializados para avaliar respostas cardiovasculares e outras funções autonômicas.

O objetivo não é simplesmente "comprovar" que existe disautonomia, mas compreender qual sistema está comprometido, qual a gravidade e qual o provável mecanismo.

Como tratar?

O tratamento depende do tipo de disautonomia e da intensidade dos sintomas.

Em muitos casos, medidas não farmacológicas são fundamentais.

Para hipotensão ortostática, podem ser consideradas estratégias como:

  • levantar-se lentamente;
  • evitar longos períodos em pé;
  • adequar hidratação quando não houver contraindicação;
  • revisar medicamentos que podem reduzir a pressão;
  • utilizar medidas físicas apropriadas;
  • evitar situações que desencadeiem queda importante da pressão.

Quando necessário, medicamentos específicos podem ser utilizados sob acompanhamento médico.

Entre as opções estudadas para hipotensão ortostática associada à doença de Parkinson estão agentes como midodrina, droxidopa e fludrocortisona, sempre considerando as características individuais do paciente e o risco de hipertensão em decúbito.

A constipação, os sintomas urinários, a sialorreia e a disfunção sexual também possuem abordagens terapêuticas específicas.

O tratamento, portanto, deve ser individualizado.

A importância de revisar os medicamentos

Alguns medicamentos utilizados para tratar a própria doença de Parkinson podem influenciar a pressão arterial e agravar sintomas autonômicos.

Por isso, diante de tontura, quedas, desmaios ou fadiga ao permanecer em pé, não basta simplesmente aumentar a ingestão de líquidos ou iniciar um medicamento.

É importante revisar:

  • medicamentos antiparkinsonianos;
  • anti-hipertensivos;
  • diuréticos;
  • medicamentos cardiovasculares;
  • outras substâncias capazes de interferir na pressão arterial.

O tratamento da disautonomia frequentemente exige equilíbrio entre melhorar os sintomas e evitar efeitos adversos.

Disautonomia não é apenas "pressão baixa"

Essa talvez seja a mensagem mais importante.

Quando um paciente com parkinsonismo relata tontura ao levantar, constipação, urgência urinária, impotência sexual, alterações da sudorese ou dificuldade para engolir, esses sintomas não devem ser tratados como problemas isolados.

Eles podem fazer parte de uma mesma alteração do sistema nervoso autônomo.

Reconhecer esse padrão permite:

melhorar a qualidade de vida → reduzir o risco de quedas → tratar sintomas frequentemente negligenciados → revisar medicamentos → e, em determinados casos, esclarecer melhor o diagnóstico do parkinsonismo.

Quando procurar avaliação neurológica?

A avaliação especializada é particularmente importante quando o paciente apresenta:

  • desmaios ou quase desmaios ao levantar;
  • quedas recorrentes;
  • pressão muito baixa em pé;
  • pressão muito alta deitado;
  • retenção urinária ou incontinência importante;
  • constipação grave;
  • disfunção sexual associada a outros sintomas neurológicos;
  • parkinsonismo de evolução rápida;
  • pouca resposta à levodopa;
  • alteração importante do equilíbrio;
  • sintomas autonômicos que começaram antes ou muito próximos dos sintomas motores.

Nessas situações, a disautonomia pode ser mais do que uma complicação da doença: pode ser uma pista diagnóstica.

O olhar além do tremor

A doença de Parkinson e os demais parkinsonismos não devem ser avaliados apenas pelo movimento.

O cérebro também controla funções que acontecem silenciosamente durante todo o dia — manter a pressão arterial quando levantamos, movimentar o intestino, esvaziar a bexiga, regular a temperatura e coordenar diversas funções internas.

Quando essas funções começam a falhar, o corpo está fornecendo informações importantes.

Na neurologia, às vezes o diagnóstico está justamente nos sintomas que o paciente não considera neurológicos.

Por isso, investigar a disautonomia não significa apenas tratar tontura, constipação ou alterações urinárias. Significa compreender melhor o paciente com parkinsonismo como um todo.


Em resumo

Disautonomia é frequente nos parkinsonismos e pode envolver os sistemas cardiovascular, gastrointestinal, urinário, sexual e termorregulatório.

Na doença de Parkinson, essas manifestações podem surgir durante a evolução e, em alguns pacientes, fazer parte da fase prodrômica.

Por outro lado, uma falência autonômica muito precoce ou intensa, especialmente quando associada a parkinsonismo pouco responsivo à levodopa, instabilidade postural ou sinais cerebelares, deve levar o neurologista a considerar diagnósticos como a atrofia de múltiplos sistemas.

O reconhecimento precoce permite investigar, tratar os sintomas e oferecer ao paciente uma compreensão mais precisa de sua condição.


Perguntas Frequentes

O que é disautonomia?

Disautonomia é o termo utilizado para descrever alterações do funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável por controlar funções involuntárias como pressão arterial, frequência cardíaca, funcionamento intestinal, controle da bexiga, sudorese, regulação da temperatura e função sexual.

Quais são os sintomas mais comuns de disautonomia nos parkinsonismos?

Os sintomas mais frequentes incluem tontura ao levantar (hipotensão ortostática), constipação, urgência urinária, noctúria, disfunção sexual, alterações da sudorese e sialorreia (excesso de saliva). Esses sintomas podem aparecer antes dos sintomas motores em alguns pacientes.

O que é hipotensão ortostática?

É a queda da pressão arterial que ocorre quando a pessoa se levanta. Pode causar tontura, sensação de desmaio, visão turva, fraqueza e, em casos mais graves, síncope. É importante porque aumenta o risco de quedas.

Por que a pressão pode estar baixa de dia e alta à noite?

Na disautonomia, a perda da capacidade de regular a pressão arterial pode produzir grande variabilidade. O paciente pode ter hipotensão ao ficar em pé e, simultaneamente, hipertensão quando deitado, inclusive à noite. Isso exige cuidado porque algumas medidas para tratar a pressão baixa podem piorar a pressão alta em decúbito.

A disautonomia ocorre apenas na doença de Parkinson?

Não. Embora seja frequente na doença de Parkinson, uma falência autonômica muito precoce, intensa ou desproporcional aos sintomas motores pode indicar outras síndromes neurodegenerativas, como a atrofia de múltiplos sistemas (AMS).

Como é feito o diagnóstico da disautonomia?

O diagnóstico começa com a história clínica detalhada e a medição da pressão arterial e frequência cardíaca deitado e em pé. Dependendo do caso, podem ser necessários testes autonômicos, avaliação urológica, gastrointestinal e diário de pressão arterial.

A disautonomia tem cura?

Não existe cura específica para a disautonomia, mas os sintomas podem ser tratados e controlados com medidas não farmacológicas, medicamentos específicos e revisão dos medicamentos em uso. O tratamento é sempre individualizado.

Quando a disautonomia faz suspeitar de atrofia de múltiplos sistemas?

Quando a falência autonômica é muito precoce, intensa, acompanhada de parkinsonismo pouco responsivo à levodopa, instabilidade postural precoce, ataxia cerebelar ou progressão rápida, é necessário investigar a possibilidade de AMS.

Quando devo procurar avaliação neurológica?

A avaliação especializada é importante em casos de desmaios ao levantar, quedas recorrentes, pressão muito baixa em pé ou muito alta deitado, retenção urinária, constipação grave, disfunção sexual associada a sintomas neurológicos, parkinsonismo de evolução rápida ou pouca resposta à levodopa.

Por que é importante revisar os medicamentos?

Alguns medicamentos utilizados para tratar a própria doença de Parkinson e outros (como anti-hipertensivos e diuréticos) podem influenciar a pressão arterial e agravar os sintomas autonômicos. O tratamento exige equilíbrio entre melhorar os sintomas e evitar efeitos adversos.

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Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

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