Doença de Lewy: a doença de Robin Williams
A doença com corpos de Lewy une alterações de memória, alucinações, sono e movimento em uma única causa neurodegenerativa — a mesma que afetou Robin Williams em seus últimos anos. Entenda os 4 sinais que levantam a suspeita e por que o diagnóstico pode ser difícil.

Quando alterações de memória, alucinações, sono e movimento podem ter uma única causa
Robin Williams fez milhões de pessoas rirem. Mas, nos últimos anos de sua vida, algo mudou profundamente.
O ator e comediante passou a apresentar sintomas que inicialmente pareciam difíceis de explicar: alterações cognitivas, ansiedade, mudanças de comportamento, confusão, paranoia, alucinações, problemas de sono e alterações do movimento.
O diagnóstico correto não foi estabelecido enquanto ele estava vivo.
Após sua morte, a análise neuropatológica revelou uma doença avançada por corpos de Lewy — uma forma de doença neurodegenerativa que pode comprometer simultaneamente memória, atenção, percepção visual, comportamento, sono e movimento.
A história de Robin Williams ajudou a chamar a atenção mundial para uma doença ainda pouco reconhecida: a demência com corpos de Lewy.
O que é a doença de Lewy?
A doença de corpos de Lewy faz parte do grupo das doenças neurodegenerativas e está relacionada ao acúmulo anormal da proteína alfa-sinucleína dentro das células nervosas.
Esses depósitos são chamados de corpos de Lewy.
A presença dessa proteína pode interferir no funcionamento de diferentes circuitos cerebrais, produzindo uma combinação particularmente característica de sintomas cognitivos, motores, psiquiátricos e relacionados ao sono.
Por isso, uma pessoa com doença de Lewy pode apresentar, ao mesmo tempo:
- alterações de atenção;
- oscilações importantes do estado mental;
- alucinações visuais;
- sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson;
- alterações do sono;
- mudanças de comportamento;
- alterações autonômicas, como queda da pressão ao levantar;
- dificuldade para caminhar e quedas.
Essa combinação é uma das pistas mais importantes para o diagnóstico.
Por que a doença de Lewy pode ser confundida com Alzheimer?
Uma das maiores dificuldades é que a doença de Lewy pode começar com alterações cognitivas semelhantes às observadas na doença de Alzheimer.
Entretanto, existe uma diferença clínica importante.
Na doença de Alzheimer, a perda de memória episódica costuma ocupar posição central desde o início.
Na demência com corpos de Lewy, especialmente nas fases iniciais, podem chamar mais atenção:
atenção → percepção visual → funções executivas → flutuações cognitivas → comportamento → sono
Enquanto a memória pode estar relativamente preservada no começo, o paciente pode apresentar dificuldade para manter a atenção, organizar tarefas, interpretar o ambiente ou realizar atividades visuoespaciais.
Com a evolução, a memória também pode ser afetada.
Os 4 sinais que devem levantar a suspeita
Existem quatro manifestações clínicas particularmente importantes na identificação da demência com corpos de Lewy.
1. Flutuações cognitivas
O paciente pode apresentar períodos em que parece relativamente bem e, em outros momentos, ficar extremamente sonolento, desatento ou confuso.
Familiares frequentemente descrevem:
"Tem dias em que parece outra pessoa."
Ou até:
"De manhã estava muito bem e algumas horas depois parecia completamente confuso."
Essas oscilações podem ocorrer ao longo do mesmo dia e são uma característica importante da doença.
2. Alucinações visuais
Esse é um dos sinais mais característicos.
A pessoa pode enxergar:
- pessoas;
- crianças;
- animais;
- sombras;
- objetos;
- pessoas que não estão presentes.
Um aspecto interessante é que essas alucinações podem ser extremamente detalhadas e realistas.
O paciente pode, por exemplo, conversar com alguém que a família sabe que não está no ambiente.
Isso não significa necessariamente que a pessoa esteja "perdendo a razão".
É uma manifestação neurológica que pode fazer parte da própria doença.
3. Parkinsonismo
A doença de Lewy também pode provocar sintomas semelhantes aos observados na doença de Parkinson.
Entre eles:
- lentidão dos movimentos;
- rigidez muscular;
- passos curtos;
- postura inclinada;
- redução da expressão facial;
- dificuldade para iniciar movimentos;
- alterações do equilíbrio;
- quedas;
- tremor, que pode ou não estar presente.
Essa combinação pode levar inicialmente à suspeita de doença de Parkinson.
4. Transtorno comportamental do sono REM
Outro sinal extremamente importante pode acontecer durante o sono.
A pessoa começa a representar fisicamente os sonhos.
Pode:
- falar;
- gritar;
- chutar;
- socar;
- movimentar os braços;
- cair da cama.
Em algumas pessoas, esse transtorno do sono pode aparecer anos antes das alterações cognitivas ou motoras.
Por isso, perguntar sobre o comportamento durante o sono pode fornecer uma pista diagnóstica valiosa.
Quando a doença de Lewy se parece com Parkinson?
Existe uma relação muito próxima entre doença de Lewy e doença de Parkinson.
Ambas fazem parte do espectro das sinucleinopatias, doenças nas quais a alfa-sinucleína tem papel central.
Uma maneira prática de diferenciá-las é observar quando os sintomas cognitivos aparecem em relação aos sintomas motores.
Quando a demência surge antes ou aproximadamente no mesmo período dos sintomas parkinsonianos, pensamos principalmente em:
Demência com corpos de Lewy.
Quando uma pessoa apresenta doença de Parkinson estabelecida e desenvolve demência posteriormente, geralmente após um período de mais de um ano, utiliza-se o diagnóstico de:
Demência da doença de Parkinson.
As duas condições fazem parte do espectro da doença por corpos de Lewy.
E o caso de Robin Williams?
A história de Robin Williams é importante porque demonstra como a doença pode se apresentar de maneira complexa.
Nos meses que antecederam sua morte, ele apresentou uma combinação de sintomas que incluía alterações cognitivas e comportamentais, ansiedade, paranoia, alucinações, confusão e alterações motoras.
Na época, não havia uma explicação única capaz de reunir todos esses sinais.
Somente posteriormente a autópsia demonstrou doença difusa por corpos de Lewy.
A própria história de Robin e de sua esposa, Susan Schneider Williams, tornou-se uma importante ferramenta de conscientização sobre a doença. Organizações especializadas passaram a utilizar sua história para mostrar a importância do reconhecimento precoce da doença de Lewy.
É importante, entretanto, fazer uma distinção:
Robin Williams não deve ser usado como exemplo de que todo paciente com doença de Lewy apresentará o mesmo quadro.
A apresentação clínica é bastante variável.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é principalmente clínico.
O neurologista avalia cuidadosamente:
- história da evolução dos sintomas;
- memória;
- atenção;
- funções executivas;
- habilidades visuoespaciais;
- comportamento;
- sono;
- alucinações;
- movimentos;
- equilíbrio;
- pressão arterial e outras funções autonômicas.
A avaliação neuropsicológica pode ajudar a identificar o padrão de comprometimento cognitivo.
Exames de imagem, como ressonância magnética, podem ser importantes para excluir outras causas e fornecer informações complementares.
Em situações selecionadas, exames funcionais e biomarcadores podem contribuir para aumentar a segurança diagnóstica.
Atualmente, nenhum exame isolado é capaz de confirmar sozinho todos os casos de doença de Lewy durante a vida. A confirmação neuropatológica definitiva historicamente depende da análise cerebral após a morte.
Existe tratamento?
Ainda não existe um tratamento capaz de eliminar os corpos de Lewy ou interromper definitivamente a progressão da doença.
Mas isso não significa que não exista tratamento.
Muitos sintomas podem ser manejados.
O tratamento deve ser individualizado e pode envolver estratégias para:
- sintomas cognitivos;
- alucinações;
- alterações do sono;
- sintomas parkinsonianos;
- depressão e ansiedade;
- alterações autonômicas;
- quedas;
- dificuldades de deglutição;
- alterações comportamentais.
O acompanhamento neurológico é particularmente importante porque algumas pessoas com doença de Lewy apresentam sensibilidade importante a determinados medicamentos antipsicóticos, podendo ocorrer piora significativa dos sintomas motores, cognitivos ou autonômicos.
Por isso, medicamentos não devem ser iniciados ou modificados sem orientação médica.
Doença de Lewy não é apenas "perda de memória"
Esse é um dos pontos mais importantes.
Quando pensamos em demência, frequentemente pensamos apenas em esquecimento.
Na doença de Lewy, entretanto, o quadro pode ser muito mais complexo.
O paciente pode apresentar:
cognição + movimento + visão + sono + comportamento + funções autonômicas
Essa combinação é justamente uma das pistas que ajudam o neurologista a reconhecer a doença.
Quando procurar um neurologista?
É importante procurar avaliação neurológica quando uma pessoa, especialmente após os 50 anos, apresenta uma combinação de:
- alterações de memória ou atenção;
- alucinações visuais;
- mudanças inexplicadas de comportamento;
- períodos de confusão ou sonolência;
- rigidez ou lentidão dos movimentos;
- quedas frequentes;
- alterações importantes do sono;
- comportamento agressivo durante os sonhos;
- alterações do equilíbrio;
- tontura ou desmaios ao levantar.
Quanto mais cedo o padrão clínico for reconhecido, maior a possibilidade de organizar adequadamente a investigação, o tratamento e o planejamento dos cuidados.
A lição de Robin Williams
A história de Robin Williams deixou uma mensagem que ultrapassa o mundo do cinema.
Às vezes, o paciente não está simplesmente "deprimido".
Não está apenas "esquecendo".
Não está apenas "envelhecendo".
E não necessariamente tem apenas Parkinson ou Alzheimer.
Uma combinação aparentemente desconectada de sintomas pode representar uma única doença neurológica.
Reconhecer esse padrão é uma das funções mais importantes da neurologia.
A doença de Lewy continua sendo uma condição complexa e desafiadora, mas o conhecimento sobre ela vem aumentando rapidamente. Hoje, médicos e pesquisadores conseguem reconhecer melhor seus sinais, aprimorar a investigação e oferecer estratégias de tratamento e suporte mais adequadas para pacientes e familiares.
Se você percebeu mudanças de memória, comportamento, sono, percepção visual ou movimento em você ou em alguém da sua família, uma avaliação neurológica pode ajudar a identificar a causa.
Dr. Marcelo Zalli — Neurologista
Avaliação especializada de alterações cognitivas, demências, memória, doença de Parkinson e outros distúrbios neurológicos.
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Escrito e revisado por
Dr. Marcelo Zalli
Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326
Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas
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Consultório em Balneário Camboriú (Menara Medical Center — Ariribá) e em Itajaí (Petrus Centro Médico — Centro), no litoral de Santa Catarina.
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