Educação ao paciente

Síndrome do Pôr do Sol: o que é e como ajudar quem tem Alzheimer ao final do dia

A Síndrome do Pôr do Sol (sundowning) é o agravamento de confusão, ansiedade e agitação ao entardecer em pessoas com Alzheimer. Entenda por que acontece e o que famílias e cuidadores podem fazer.

Síndrome do Pôr do Sol: o que é e como ajudar quem tem Alzheimer ao final do dia
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
9 min de leitura03 de setembro de 2026
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O que é a Síndrome do Pôr do Sol

A Síndrome do Pôr do Sol — conhecida em inglês como sundowning — é o nome que se dá ao agravamento de sintomas comportamentais e cognitivos que ocorre em muitas pessoas com Alzheimer e outras demências ao final da tarde e início da noite.

Não é uma doença separada. É um padrão: a pessoa que esteve relativamente tranquila durante o dia começa, ao entardecer, a apresentar confusão mental mais intensa, ansiedade, agitação, irritabilidade e, por vezes, comportamentos de wanderlust (vagar sem rumo).

Para familiares e cuidadores, costuma ser um dos momentos mais desgastantes do dia — exatamente quando todos estão cansados e a casa começa a escurecer.

Por que acontece

Não existe uma única causa. Acredita-se que a Síndrome do Pôr do Sol resulte da combinação de vários fatores que sobrecarregam um cérebro já comprometido:

  • Fadiga cognitiva acumulada. O cérebro com Alzheimer trabalha o dia inteiro para compensar falhas de memória e orientação. Ao fim da tarde, essa reserva se esgota.
  • Alteração do ciclo de luz e escuridão (ritmo circadiano). A doença afeta o núcleo supraquiasmático, a área que regula o sono. A confusão entre dia e noite se amplia quando a luz diminui.
  • Sombra e penumbra. O escurecimento do ambiente cria sombras que podem ser interpretadas de forma ameaçadora ou confusa.
  • Fome, sede e dor não comunicadas. Necessidades básicas não atendidas viram agitação, pois a pessoa não consegue nomear o que sente.
  • Infecções e mudanças de rotina. Uma infecção urinária silenciosa ou uma mudança no ambiente podem detonar o quadro.

Sinais que ajudam a reconhecer

A síndrome tem um contorno de horário. Os sinais costumam aparecer no fim da tarde, pioram com o escurecer e tendem a melhorar na manhã seguinte:

  • Aumento da confusão e desorientação (a pessoa pode não reconhecer o cômodo em que está).
  • Agitação motora: levantar e sentar, caminhar sem destino, tentar "ir para casa".
  • Irritabilidade, ansiedade ou medo repentino.
  • Suspiciousness — desconfiar de familiares ou achar que há intrusos.
  • Dificuldade maior para distinguir sonho e realidade ao anoitecer.

Um lembrete importante: esse comportamento não é intencional. A pessoa não está sendo teimosa nem agressiva por escolha. É o cérebro doente reagindo à sobrecarga.

O que famílias e cuidadores podem fazer

Boa parte do manejo é ambiental — ajustar o mundo ao redor da pessoa, e não exigir que ela se ajuste ao mundo.

1. Iluminação planejada

Mantenha a casa bem iluminada até a hora de dormir. Feche cortinas antes do sol baixar para reduzar as sombras longas do entardecer. Lâmpadas quentes e difusas são melhores que luz fria e pontual.

2. Rotina previsível

O cérebro com Alzheimer se beneficia de previsibilidade. Refeições, banho, caminhada e repouso nos mesmos horários reduzem a carga de decisões e novidades que precisam ser processadas.

3. Atividade calma ao entardecer

Em vez de deixar a pessoa ociosa quando a luz cai, ofereça uma atividade simples e familiar: ouvir música antiga, dobrar roupas, olhar um álbum de fotos. O objetivo não é produtivo — é ancorar a atenção em algo conhecido.

4. Cuidado com a alimentação e a hidratação

Ofereça água e um lanche leve no fim da tarde. Restrinca cafeína após o meio-dia. Um jantar cedo evita que a fome vire agitação.

5. Evite discussões e correções

Quando a pessoa estiver confusa ao entardecer, não tente convencê-la de que está errada. Redirecione com calma: "Vamos tomar um chá" funciona melhor que "Você já jantou, não precisa sair".

6. Exposição à luz do dia

Manhãs ensolaradas — mesmo 20 minutos ao ar livre — ajudam a reajustar o relógio interno. Isso reduz a confusão noturna e melhora o sono.

Quando procurar o neurologista

A Síndrome do Pôr do Sol é maneável em casa na maioria dos casos. Mas procure ajuda médica quando:

  • A agitação se tornar perigosa (risco de queda, sair de casa à noite).
  • Aparecerem novos sintomas de início súbito — pode ser infecção, dor ou efeito de medicação.
  • O cuidador estiver exausto — o esgotamento do cuidador é um sinal clínico tão importante quanto o da pessoa com Alzheimer.

O neurologista pode revisar a medicação, tratar causas reversíveis (infecção, dor, distúrbio metabólico) e, quando necessário, discutir opções farmacológicas adequadas para agitação ao entardecer.

Uma palavra sobre o cuidador

O entardecer também é o horário em que o cuidador mais cansa. Planeje o dia de modo que as tarefas mais exigentes fiquem para a manhã e a noite seja leve. Aceitar ajuda — de familiares, de cuidadores profissionais, de grupos de apoio — não é fraqueza. É parte do tratamento.


Conteúdo educativo do Dr. Marcelo Zalli, neurologista em Itajaí e Balneário Camboriú (SC). Não substitui consulta médica presencial. Se alguém que você ama apresenta quadro de Alzheimer com agitação ao entardecer, agende uma avaliação.

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Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas

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