Enxaqueca vestibular: tontura, vertigem e desequilíbrio
A enxaqueca vestibular causa vertigem e desequilíbrio sem necessariamente haver dor de cabeça. Saiba como é feito o diagnóstico diferencial e o tratamento.

A enxaqueca vestibular é uma forma particular de enxaqueca em que vertigem, tontura e desequilíbrio são os sintomas dominantes — muitas vezes sem dor de cabeça. É uma das condições mais subdiagnosticadas e confundidas da neurologia, frequentemente tratada como labirintite refratária.
O que é enxaqueca vestibular?
A enxaqueca vestibular é uma condição neurológica em que o sistema vestibular (responsável pelo equilíbrio) é afetado pelo mecanismo da enxaqueca. Ela pode ocorrer com ou sem dor de cabeça, o que torna o diagnóstico um desafio.
Acomete aproximadamente 1% da população, sendo mais comum em mulheres, com pico de incidência entre os 30 e 50 anos. É uma das causas mais frequentes de vertigem episódica em adultos.
Sintomas
A enxaqueca vestibular pode se manifestar de diversas formas:
- Vertigem verdadeira (sensação de que o ambiente gira) ou tontura flutuante
- Desequilíbrio e instabilidade ao caminhar
- Intolerância ao movimento — piora com carros, ônibus ou movimento visual
- Sensibilidade visual a luzes, padrões visuais complexos ou telas
- Náusea e vômito durante as crises
- Dor de cabeça pode estar presente, mas não é obrigatória
- Fonofobia e fotofobia podem acompanhar
As crises podem durar de minutos a horas, e em alguns casos, dias. Muitos pacientes referem sensação constante de desequilíbrio entre as crises.
Por que é confundida com labirintite?
A confusão é comum porque ambos causam vertigem. Mas existem diferenças importantes:
| Característica | Enxaqueca vestibular | Labirintite | |---|---|---| | Duração | Episódica (min a dias) | Aguda, com recuperação gradual | | História familiar | Frequentemente positiva | Geralmente ausente | | Dor de cabeça associada | Pode haver | Raramente | | Recorrência | Crises recorrentes | Evento único ou episódios raros | | Tratamento | Preventivos para enxaqueca | Reabilitação vestibular, corticoide |
O diagnóstico errado de labirintite leva a tratamentos ineficazes e à persistência dos sintomas. Muitos pacientes chegam ao neurologista após anos de tratamento para labirintite sem melhora.
Diagnóstico
O diagnóstico da enxaqueca vestibular é clínico, baseado nos critérios da Bárány Society e da ICHD-3:
- História de enxaqueca (pessoal ou familiar)
- Pelo menos 5 episódios de vertigem/tontura com duração de 5 minutos a 72 horas
- Sintomas vestibulares moderados a severos
- Pelo menos metade das crises associadas a pelo menos um dos seguintes: dor de cabeça com características de enxaqueca, fotofobia, fonofobia, aura visual
Exames como videonistagmografia (VNG), audiometria e ressonância magnética podem ser solicitados para excluir outras causas de vertigem.
Tratamento
Tratamento da crise aguda
- Triptanos podem ser eficazes para crises com dor de cabeça associada
- Antieméticos para náusea
- Repouso em ambiente calmo e escuro
Tratamento preventivo
O tratamento preventivo é fundamental, especialmente quando as crises são frequentes:
- Betabloqueadores (propranolol)
- Anticonvulsivantes (topiramato, valproato)
- Antidepressivos (amitriptilina, venlafaxina)
- Cinarizina ou flunarizina (antagonistas de cálcio com ação vestibular)
- Toxina botulínica em casos crônicos e refratários
- Anticorpos monoclonais anti-CGRP
Reabilitação vestibular
A reabilitação vestibular é uma ferramenta essencial. Trata-se de exercícios fisioterapêpicos que ajudam o cérebro a compensar o déficit vestibular, reduzindo tontura e desequilíbrio.
Gatilhos
Os gatilhos da enxaqueca vestibular são semelhantes aos de outros tipos de enxaqueca:
- Estresse e ansiedade
- Alterações de sono
- Movimento e estímulos visuais complexos
- Hormonais (ciclo menstrual)
- Alimentares (jejum, cafeína, álcool)
- Mudanças climáticas
Conclusão
A enxaqueca vestibular é uma condição tratável que afeta milhões de brasileiros. O diagnóstico correto muda o curso do tratamento e da vida do paciente. Se você sofre com tontura, vertigem ou desequilíbrio recorrentes — especialmente com história de enxaqueca —, procure um neurologista especializado em cefaleias. Não é necessário viver com tontura: há tratamento disponível e eficaz.
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Escrito e revisado por
Dr. Marcelo Zalli
Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326
Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas
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Consultório em Balneário Camboriú (Menara Medical Center — Ariribá) e em Itajaí (Petrus Centro Médico — Centro), no litoral de Santa Catarina.
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