Educação ao paciente

Ele quer ir para casa

Quando a pessoa com Alzheimer diz “quero ir para casa” — mesmo estando em casa. Como compreender a emoção por trás da frase e ajudar sem discutir.

Ele quer ir para casa
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
11 min de leitura22 de agosto de 2026
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Quando a pessoa com Alzheimer diz “quero ir para casa” — mesmo estando em casa

“Eu quero ir para casa.”

Talvez poucas frases sejam tão difíceis para uma família que cuida de uma pessoa com doença de Alzheimer.

Porque, muitas vezes, existe uma situação que parece não fazer sentido: a pessoa está dentro da própria casa, mas insiste que precisa ir embora.

Ela pode pegar uma bolsa. Pode procurar a porta. Pode perguntar várias vezes quando vai voltar. Pode dizer que precisa “ir para casa” porque alguém está esperando. Pode ficar inquieta, andar de um lado para o outro ou até tentar sair.

E, para quem está cuidando, surge uma dúvida:

“Mas como eu explico para ela que ela já está em casa?”

A resposta mais importante talvez seja:

nem sempre precisamos explicar. Precisamos primeiro compreender o que essa frase significa para aquela pessoa naquele momento.

Idosa junto à porta de casa, sendo acolhida pelo marido — Alzheimer e desejo de ir para casa


“Casa” pode significar muito mais do que um endereço

Quando uma pessoa com Alzheimer diz: “Eu quero ir para casa”, ela pode não estar necessariamente falando de um endereço.

“Casa” pode representar segurança. Pode representar a infância. Pode ser a casa onde criou os filhos. Pode ser a casa onde viveu durante décadas. Pode significar uma pessoa. Uma rotina. Um lugar onde ela se sentia protegida. Ou simplesmente a sensação de estar em um lugar conhecido.

À medida que a doença de Alzheimer progride, a pessoa pode apresentar dificuldade para reconhecer ambientes, interpretar informações e se orientar no tempo e no espaço. O Ministério da Saúde reconhece a desorientação espacial e temporal como manifestações que podem ocorrer na doença.

Por isso, quando ela diz: “Quero ir para casa”, talvez a pergunta não seja: “Como faço para convencê-la de que ela já está em casa?”

Talvez seja: “O que ela está procurando quando diz que quer ir para casa?”

Essa mudança de perspectiva pode ajudar muito.


A primeira coisa: não discuta

Imagine a seguinte situação.

A pessoa está em casa e diz:

— Quero ir para casa.

O familiar responde:

— Mas você já está em casa!

Ela insiste:

— Não estou. Quero ir para casa.

E o familiar:

— Você está ficando confusa. Essa é a sua casa!

Ela:

— Não é!

E começa uma discussão.

O problema é que, naquele momento, a lógica do familiar e a percepção da pessoa com Alzheimer podem estar completamente diferentes.

Se você tentar vencer a discussão usando argumentos, pode aumentar a ansiedade, a irritação e a resistência.

A recomendação de instituições especializadas é evitar confrontos e procurar compreender a emoção ou a necessidade por trás do comportamento.

Isso não significa mentir.

Significa não transformar uma dificuldade cognitiva em uma disputa.


Então o que eu digo?

Não existe uma frase única que funcione para todas as pessoas.

Mas algumas respostas podem ajudar.

Se ela disser:

“Quero ir para casa.”

Você pode responder:

“Você está querendo ir para casa... me conta, o que você está sentindo?”

Ou:

“Você está com saudade de casa?”

Ou:

“Você está preocupada com alguma coisa?”

Ou simplesmente:

“Eu estou aqui com você. Você está segura.”

Perceba a diferença.

Em vez de responder apenas ao conteúdo literal da frase, você tenta descobrir a emoção que existe por trás dela.


E se ela disser: “Mas eu quero ir agora!”

Nesse momento, insistir em uma explicação racional pode não ajudar.

Você pode tentar:

“Eu entendo. Vamos ficar aqui um pouquinho. Depois a gente vê isso juntos.”

Ou:

“Vamos tomar um café primeiro e depois conversamos.”

Ou:

“Vamos sentar um pouco. Eu fico com você.”

A ideia é reduzir a tensão e oferecer segurança.

Em algumas situações, uma mudança de atividade pode ajudar.

Uma música conhecida. Um álbum de fotografias. Um café. Uma caminhada segura. Uma tarefa simples. Uma conversa sobre alguém importante para aquela pessoa.

Atividades estruturadas e significativas podem ajudar a reduzir inquietação e oferecer uma sensação de propósito e familiaridade.


Validar não significa concordar com tudo

Esse é um ponto muito importante.

Quando falamos em validar a pessoa, não significa dizer:

“Sim, você está certa. Vamos sair agora.”

Validar significa reconhecer que a emoção dela é real, mesmo que a percepção da situação esteja alterada.

Por exemplo:

Ela:

— Quero ir para casa. Minha mãe está me esperando.

Você sabe que a mãe dela faleceu há muitos anos.

Você não precisa dizer:

— Sua mãe morreu há 20 anos! Você não lembra?

Uma alternativa pode ser:

“Você está pensando na sua mãe? Está com saudade dela?”

Você não está confirmando que a mãe está esperando.

Você está acolhendo a emoção.

Essa diferença é fundamental — e é o tema central de outro artigo que escrevemos sobre como conversar com uma pessoa com Alzheimer, onde abordamos a comunicação em cada fase da doença.


“Mas ela está na própria casa!”

Essa é uma das situações mais confusas para os familiares.

E realmente pode ser difícil compreender.

Mas imagine que o cérebro da pessoa já não consiga reconhecer aquele ambiente da mesma maneira que antes.

A casa pode ter sido reformada. Os móveis podem ter mudado. A pessoa pode ter mudado de quarto. Pode estar em uma residência diferente. Ou simplesmente pode ter perdido parte da capacidade de reconhecer aquele espaço como familiar.

A Alzheimer’s Association reconhece que pessoas com demência podem querer ir para casa mesmo quando estão em casa e que alterações no ambiente, perda de orientação e ansiedade podem estar relacionadas a esse comportamento.

Por isso, não é necessariamente uma questão de lógica.

É uma questão de percepção.


No início do Alzheimer: ainda há muita consciência

Nas fases iniciais, a pessoa pode perceber que está tendo dificuldades.

Pode perceber que esqueceu uma informação. Pode se perder em um lugar conhecido. Pode perceber que está tendo dificuldade para organizar determinada tarefa. E isso pode gerar insegurança.

Nesse momento, quando ela diz:

“Quero ir para casa”, é importante investigar se existe alguma preocupação concreta.

Ela está cansada? Está em um ambiente desconhecido? Está em uma consulta? Está em uma casa de familiares? Está em uma reunião com muitas pessoas? Está querendo voltar para a própria rotina? Está preocupada com alguma tarefa? Está procurando alguém?

Em fases iniciais, manter atividades e ambientes familiares, dentro do possível, pode ajudar. Conhecer os sinais e sintomas iniciais do Alzheimer ajuda a família a entender em que momento da doença essa dificuldade está aparecendo.


Na fase moderada: a orientação pode ficar mais comprometida

À medida que o Alzheimer evolui, podem surgir maiores dificuldades de orientação, linguagem, memória e interpretação do ambiente.

Nesse momento, a frase “quero ir para casa” pode aparecer repetidamente.

A pessoa pode perguntar:

“Quando vamos para casa?”

Você responde.

Cinco minutos depois:

“Quando vamos para casa?”

E novamente:

“Eu quero ir para casa.”

É importante compreender que a repetição não significa necessariamente que a pessoa esteja ignorando sua resposta.

Ela pode não conseguir manter aquela informação na memória.

Por isso, responder com:

“Eu já falei isso dez vezes!”

provavelmente não resolverá.

Ela não está necessariamente escolhendo esquecer sua resposta.


Na fase moderada, tente simplificar

Use frases curtas. Fale devagar. Olhe para a pessoa. Dê tempo para ela responder. Evite várias perguntas ao mesmo tempo.

Em vez de:

“Por que você quer ir para casa? Você não está gostando daqui? Você está cansada? Aconteceu alguma coisa?”

Experimente:

“Você está cansada?”

Espere.

Depois:

“Está com medo?”

Espere.

Depois:

“Está com saudade de alguém?”

A comunicação precisa acompanhar a capacidade cognitiva daquele momento — algo que depende dos estágios da doença de Alzheimer.


Na fase grave: talvez a pergunta mude

Nas fases mais avançadas, a pessoa pode ter dificuldade para explicar por que quer ir embora.

Ela pode apenas dizer:

“Casa.”

Ou:

“Quero ir.”

Ou caminhar em direção à porta.

Nesse momento, talvez seja ainda mais importante observar o comportamento.

Ela está com dor? Está com fome? Está com sede? Precisa usar o banheiro? Está com calor ou frio? Está cansada? Está assustada? O ambiente está barulhento? Há muitas pessoas ao redor? Alguma coisa mudou na rotina?

Pessoas com demência podem ter dificuldade crescente para comunicar desconfortos físicos. Dor, infecções, constipação, bexiga cheia, desidratação, alterações de audição ou visão e efeitos de medicamentos podem contribuir para agitação ou mudanças de comportamento.

Às vezes, o comportamento é a única forma que a pessoa encontrou para dizer:

“Alguma coisa não está bem.”


Uma mudança súbita merece atenção

Este é um alerta muito importante para as famílias.

Se a pessoa que habitualmente está tranquila começa, de repente, a querer sair de casa, fica muito confusa, agitada ou apresenta uma mudança marcante de comportamento, não devemos simplesmente assumir que “é o Alzheimer piorando”.

É importante investigar.

Infecções, efeitos ou interações de medicamentos, desidratação, dor e outras condições clínicas podem provocar mudanças comportamentais.

Uma mudança súbita de comportamento não deve ser automaticamente atribuída ao Alzheimer.


Quando “quero ir para casa” vira risco de sair sozinho

Aqui a situação muda.

Se a pessoa está tentando abrir portas, sair de casa, andar pela rua ou se afastar do cuidador, precisamos pensar também em segurança.

O comportamento de perambulação ou saída não planejada pode ocorrer em pessoas com Alzheimer e pode levar a situações perigosas.

Algumas medidas podem ajudar:

  • observar em quais horários isso acontece;
  • identificar o que costuma acontecer antes da tentativa de sair;
  • manter uma rotina previsível;
  • oferecer atividades nos horários em que a inquietação costuma aparecer;
  • reduzir estímulos excessivos;
  • garantir que necessidades básicas estejam atendidas;
  • revisar a segurança das portas e acessos da residência;
  • manter identificação adequada;
  • ter uma fotografia recente disponível caso a pessoa se perca.

Não existe uma medida que elimine completamente o risco.

Por isso, a prevenção precisa ser individualizada.


Não transforme a porta de casa em uma batalha

Imagine uma pessoa que insiste em sair.

Você segura seu braço.

Ela puxa.

Você explica.

Ela insiste.

Você aumenta o tom.

Ela fica agitada.

E a situação cresce.

Quando existe risco imediato, obviamente a prioridade é a segurança.

Mas, quando há possibilidade de intervir antes que a situação chegue a esse ponto, pode ser mais eficaz reduzir a tensão e redirecionar a atenção.

“Vamos tomar um café.”

“Vem comigo ver uma coisa.”

“Vamos sentar um pouco.”

“Você quer me ajudar com isso?”

A ideia não é distrair de maneira infantil.

É oferecer ao cérebro uma alternativa mais segura para aquela necessidade de movimento, ansiedade ou busca.


E se ela estiver em uma instituição?

Essa situação merece uma atenção especial.

É muito comum que, após uma mudança de residência, a pessoa diga:

“Quero ir para casa.”

Uma instituição nova pode ser completamente desconhecida para alguém com Alzheimer.

Novos rostos. Novos horários. Novos sons. Novo quarto. Nova rotina.

Tudo isso pode aumentar confusão e ansiedade.

A família pode ajudar levando objetos familiares, fotografias, músicas e elementos que façam parte da história da pessoa.

Também é importante compartilhar com a equipe informações sobre sua rotina, preferências, hábitos, histórias e formas de acalmá-la.


O que NÃO fazer

Quando alguém diz “quero ir para casa”, evite:

“Você já está em casa!”

“Para de falar isso.”

“Eu já expliquei.”

“Você está ficando louca.”

“Sua mãe morreu faz décadas.”

“Você não lembra de nada mesmo.”

Essas frases podem aumentar a vergonha, a frustração ou a ansiedade.

Também evite rir da situação ou conversar sobre a pessoa como se ela não estivesse presente.

A pessoa pode não compreender todos os detalhes da conversa, mas merece ser tratada com respeito.


Uma pergunta que pode ajudar muito

Quando ouvir:

“Eu quero ir para casa.”

tente perguntar:

“O que você está procurando quando quer ir para casa?”

Talvez você descubra que ela está procurando alguém.

Talvez esteja cansada.

Talvez esteja com medo.

Talvez queira sua antiga rotina.

Talvez esteja procurando segurança.

Talvez simplesmente não reconheça aquele lugar.

E talvez você descubra que a palavra “casa” não significa exatamente uma casa.

Significa pertencimento.


O cuidador também precisa ser cuidado

Existe um momento em que essa situação pode se tornar extremamente desgastante.

Porque ouvir “quero ir para casa” vinte, trinta ou quarenta vezes durante um dia pode testar os limites de qualquer pessoa.

E aqui precisamos falar com sinceridade:

não é falta de amor sentir cansaço.

Não é falta de amor sentir irritação.

Não é falta de amor precisar de uma pausa.

Cuidar de alguém com Alzheimer pode ser exaustivo, e o Ministério da Saúde e o NIA destacam a importância de dividir o cuidado, buscar apoio e reservar tempo para a própria saúde.

Você não precisa fazer tudo sozinho.

Uma família cuidadora precisa ser uma equipe.


Talvez a melhor resposta não seja “você já está em casa”

Talvez seja:

“Eu estou aqui.”

Porque, em algumas fases da doença, a pessoa pode não conseguir reconhecer exatamente onde está.

Mas ainda pode reconhecer segurança.

Pode reconhecer carinho.

Pode reconhecer uma voz.

Pode reconhecer um toque.

Pode sentir que alguém está ao seu lado.

E isso é muito importante.


Para guardar no coração

Se o seu familiar com Alzheimer diz repetidamente:

“Eu quero ir para casa”, tente não ouvir apenas as palavras.

Escute a emoção.

Observe o comportamento.

Procure uma necessidade.

Verifique se existe algum desconforto físico.

Observe o ambiente.

Pense no que aconteceu antes daquela fala.

E, principalmente, não transforme a doença em uma discussão entre vocês.

Você não precisa provar que ele está errado.

Você precisa ajudá-lo a se sentir seguro.

Às vezes, você vai conseguir.

Às vezes, não.

Alguns dias serão mais difíceis.

E tudo bem.

Cuidar de uma pessoa com Alzheimer é aprender a responder a situações que mudam o tempo todo.

Você não precisa encontrar a resposta perfeita.

Precisa encontrar a resposta possível para aquele momento.

E talvez, naquele momento, a resposta seja simplesmente sentar ao lado dela, segurar sua mão e dizer:

“Vamos ficar juntos mais um pouquinho. Eu estou aqui com você.”

Porque, quando a memória começa a confundir os lugares, talvez a sensação de segurança passe a ser construída menos pelo endereço...

e mais pela presença de quem cuida.


Quando procurar ajuda profissional?

Procure orientação médica quando o comportamento de querer sair de casa for novo, muito intenso, acompanhado de agitação importante ou representar risco para a pessoa.

Uma mudança súbita de comportamento, especialmente quando acompanhada de alteração importante da consciência, febre, dor, sonolência incomum, alucinações, queda, recusa alimentar ou outros sintomas físicos, merece avaliação clínica para investigar causas tratáveis.

Também é importante buscar ajuda quando a família já não consegue garantir segurança ou quando o comportamento está causando sofrimento significativo para a pessoa ou para o cuidador.

O cuidado não precisa ser construído sozinho.

Quanto mais informação a família recebe, maior a chance de transformar situações difíceis em estratégias possíveis.

O Dr. Marcelo Zalli é neurologista especialista em Alzheimer e demências, com participação recorrente na imprensa — incluindo reportagens sobre a doença na SBT News e no portal Menina FM, e outras matérias que você pode conferir na página de imprensa. Para avaliação neurológica de memória ou Alzheimer, agende uma consulta em Itajaí ou agende uma consulta em Balneário Camboriú. Conheça também o currículo completo do Dr. Marcelo Zalli.

Importante

Este artigo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. O comportamento de “querer ir para casa” pode ter diferentes causas e deve ser interpretado considerando o estágio da doença, a história da pessoa, o ambiente, suas necessidades físicas e emocionais e a presença ou não de mudanças clínicas recentes.

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  • As Histórias que a Memória Não Apaga — Contos sobre Alzheimer, memória, amor e os vínculos que permanecem.
  • Memory City — A técnica de memorização do Dr. Marcelo Zalli

Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas

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