Meu familiar com Alzheimer está agressivo. O que fazer?
O que fazer quando a pessoa com Alzheimer fica agressiva: como identificar a causa por trás do comportamento, proteger a segurança e responder com acolhimento em vez de confronto.

Meu familiar com Alzheimer está agressivo. O que fazer?
“Ele ficou agressivo do nada.” “Minha mãe começou a gritar comigo.” “Ele tenta me bater quando eu tento ajudá-lo.”
Essas são situações que assustam muito a família. E eu quero começar por uma informação muito importante: a agressividade na pessoa com Alzheimer não significa necessariamente que ela esteja querendo machucar alguém.
Na maioria das vezes, existe alguma coisa por trás daquele comportamento. Pode ser medo. Pode ser dor. Pode ser confusão. Pode ser uma sensação de ameaça. Pode ser frustração. Pode ser cansaço. Pode ser fome ou sede. Pode ser uma infecção. Pode ser efeito de algum medicamento.
A Alzheimer’s Association destaca que comportamentos agressivos podem surgir por desconforto físico, fatores ambientais ou dificuldades de comunicação, e que a pessoa com demência geralmente não está agindo daquela maneira de forma intencional.

Primeiro: proteja você e proteja a pessoa
Se naquele momento a pessoa está muito agressiva, tentando bater, empurrar, morder ou arremessar objetos, a prioridade é a segurança.
Retire, se for possível com segurança, objetos que possam causar ferimentos. Afaste outras pessoas, especialmente crianças. Não encurrale a pessoa. Não tente segurá-la sozinho. Não grite. Não faça movimentos bruscos. E, principalmente: não tente vencer a situação pela força.
As orientações do Ministério da Saúde para situações de agitação e violência recomendam reduzir estímulos, evitar confrontos e críticas e priorizar a segurança.
Não enfrente a agressividade com agressividade
É muito fácil, naquele momento, responder: “Para com isso!” “Você está ficando louco?” “Eu só estou tentando ajudar!”
Mas pense comigo. Se a pessoa já está assustada, confusa ou irritada, um tom de voz elevado pode ser interpretado como uma ameaça. E aí acontece uma espécie de ciclo: ela fica agressiva → você fica nervoso → ela percebe sua tensão → fica ainda mais agressiva.
Por isso, tente fazer o contrário. Fale devagar. Use frases curtas. Mantenha uma voz tranquila.
Você pode dizer: “Calma, eu estou aqui.” “Você está seguro.” “Eu não vou fazer nada contra você.”
Não tente convencer a pessoa naquele momento
A pessoa diz: “Você quer me machucar!” E o familiar responde: “Claro que não! Você sabe que eu sou seu filho!” E começa uma discussão.
Só que, naquele momento, talvez a pessoa não tenha condições cognitivas de processar aquela argumentação. A recomendação é evitar confronto e procurar compreender a emoção.
Em vez de “Você está errado!”, experimente: “Eu percebi que você está assustado.” “Está tudo bem, vamos devagar.”
Você não precisa concordar com uma ideia equivocada. Você precisa acolher a emoção sem alimentar o conflito. Esse princípio de validação emocional — em vez de confrontação — é o tema central de outro artigo sobre como conversar com uma pessoa com Alzheimer.
Mas por que ele ficou agressivo?
Essa investigação é fundamental. Pergunte a si mesmo: O que aconteceu imediatamente antes? Foi na hora do banho? Quando alguém tentou trocar sua roupa? Quando você pediu para ele comer? Quando alguém entrou no quarto?
Esse pequeno detalhe pode ser a chave. A Alzheimer’s Association recomenda observar o que aconteceu imediatamente antes da reação para tentar identificar o gatilho.
Às vezes, a agressividade é uma forma de comunicação
A pessoa com Alzheimer pode não conseguir dizer: “Estou com dor.” Então ela grita. Pode não conseguir dizer: “Estou com medo.” Então empurra.
A agressividade pode ser uma forma de comunicação de uma necessidade que a pessoa não consegue expressar adequadamente. Por isso, sempre pergunte: “Será que existe alguma necessidade por trás desse comportamento?”
Dor: uma causa que não pode ser esquecida
Uma pessoa com Alzheimer pode estar com dor e não conseguir explicar onde dói. Pode ser dor de dente. Dor abdominal. Dor urinária. Dor nas articulações. Constipação. Uma infecção.
A Alzheimer’s Association destaca que pessoas com demência podem apresentar agressividade quando estão sentindo desconforto físico e não conseguem identificar ou comunicar a causa. O NIA também alerta que uma mudança súbita de comportamento pode ser uma manifestação de dor ou doença.
E as infecções?
Infecções, especialmente em pessoas mais idosas, podem provocar mudanças importantes no comportamento. Uma pessoa pode ficar mais confusa, mais agitada, mais irritada.
Então: agressividade súbita = investigar causa clínica. Essa é uma regra muito importante.
Observe os medicamentos
A pessoa começou algum medicamento novo? Mudou a dose? Parou algum medicamento? Não suspenda ou altere medicamentos por conta própria. Converse com o médico que acompanha o paciente.
O ambiente pode estar provocando a agressividade
Imagine uma casa cheia. Televisão ligada. Celular tocando. Pessoas conversando. Crianças correndo. Para uma pessoa com Alzheimer, principalmente nas fases mais avançadas, pode ser estímulo demais.
O resultado pode ser irritação, ansiedade e agitação. Às vezes, a melhor intervenção é simplesmente: diminuir o barulho.
Evite várias pessoas tentando ajudar ao mesmo tempo
A pessoa começa a ficar agressiva. Um filho chega. Depois chega a esposa. Depois o cuidador. Todo mundo tentando falar: “Calma!” “Mãe!” “Não faz isso!”
E a pessoa fica ainda mais confusa. O ideal, quando possível, é que uma pessoa tranquila seja o mediador naquele momento.
Não se aproxime de repente
O Ministério da Saúde orienta não se aproximar pelas costas, manter as mãos visíveis e abertas e procurar permanecer no nível dos olhos da pessoa durante a abordagem.
Aproxime-se devagar. Chame pelo nome. Diga quem você é. Explique o que pretende fazer. E dê espaço.
“Mas ele não me reconhece mais!”
Isso pode acontecer, principalmente nas fases mais avançadas. E pode ser extremamente doloroso para o familiar.
Mas precisamos lembrar: a reação dele não é uma avaliação do seu amor ou da qualidade do vínculo que vocês tiveram. O cérebro está doente. Às vezes, insistir “Eu sou seu filho!” só aumenta a tensão. Talvez seja melhor: “Eu sou o Marcelo, vim ficar com você.”
Quando a pessoa acusa você de querer machucá-la
Ela pode dizer: “Você quer me matar.” “Você está tentando me roubar.”
Para o familiar, isso é muito doloroso. Mas discutir a lógica da acusação geralmente não resolve. Em vez disso: “Eu percebi que você está preocupado.” “Você está se sentindo inseguro.”
Essa mesma abordagem — acolher a emoção sem confrontar a crença — aparece em outro artigo sobre familiar com demência acusando de roubo, onde abordamos como desconfiança e acusações podem ser consequência da doença.
Mude o foco
Às vezes, continuar falando sobre o problema mantém a pessoa presa naquela situação. Então tente mudar o foco. “Vamos tomar uma água?” “Olha essa fotografia.” “Vamos ouvir aquela música que você gosta?”
A Alzheimer’s Association recomenda redirecionar a atenção para outra atividade quando determinada situação está provocando uma resposta agressiva.
Não use a força como primeira resposta
Não segure a pessoa à força para fazê-la sentar. Não tente imobilizá-la sozinho. Não amarre. Medidas de contenção física são situações excepcionais e devem ser realizadas por equipes treinadas.
E se ele tentar bater?
Primeiro, mantenha distância. Não coloque seu rosto próximo ao dele. Não tente agarrar seus braços. Afaste-se para um local seguro se isso for possível. Peça ajuda a outra pessoa.
Se houver risco importante e imediato de lesão, procure atendimento de emergência. O objetivo não é “ganhar” daquela pessoa. É impedir que alguém se machuque.
Depois que a crise passa, não fique revivendo a discussão
Você pode ficar pensando: “Como ele teve coragem de fazer isso comigo?” “Depois de tudo que eu faço!”
É compreensível sentir raiva, tristeza ou frustração. O NIA reconhece que cuidadores podem sentir tristeza, solidão, frustração, confusão e raiva diante das mudanças comportamentais provocadas pela doença.
Mas tente lembrar: o comportamento agressivo é um sintoma que precisa ser compreendido e manejado. Não é uma medida do amor que existe entre vocês.
Na fase inicial do Alzheimer
No começo da doença, a pessoa ainda pode ter bastante consciência de suas dificuldades. Ela pode perceber que está esquecendo. Pode sentir vergonha. Pode ficar frustrada.
Nesse momento, uma das melhores estratégias é: preservar a autonomia. Evite fazer tudo por ela. Evite infantilizar. Evite corrigir cada pequeno erro.
Na fase moderada
A pessoa pode não entender por que precisa tomar banho. Pode não compreender por que precisa trocar de roupa. E uma tarefa simples pode se transformar em uma situação de conflito.
Aqui, a comunicação precisa ser ainda mais simples. Uma instrução por vez. Poucas palavras. Tom tranquilo. E, principalmente: menos confronto. Conhecer os estágios da doença de Alzheimer ajuda a família a entender em que momento da doença essas dificuldades estão aparecendo.
Na fase avançada
Nas fases mais avançadas, a pessoa pode ter maior dificuldade para compreender o ambiente, reconhecer pessoas e comunicar dor ou necessidades. A agressividade pode estar relacionada a desconforto físico, medo, dificuldade de comunicação ou necessidade de ajuda.
Às vezes, o corpo está dizendo aquilo que a pessoa não consegue mais falar. O NIA destaca que, em estágios avançados, a dor pode se manifestar por alterações comportamentais, incluindo agitação e agressividade.
Existe algum horário em que ele fica mais agressivo?
Anote. Isso pode ser muito útil. Depois de alguns dias, talvez apareça um padrão. Pode ser cansaço. Pode ser fome. Pode ser excesso de estímulos. Pode ser uma atividade específica.
Se você percebeu que ele fica agressivo quando precisa tomar banho às 19h, talvez seja possível mudar o horário — uma estratégia que abordamos em detalhe no artigo sobre familiar com demência que não quer tomar banho.
O que NÃO fazer
Não grite. Não ameace. Não ridicularize. Não chame a pessoa de “teimosa”. Não discuta para provar que você está certo. Não faça várias perguntas seguidas. Não encurrale. Não se aproxime rapidamente pelas costas. Não tente resolver tudo sozinho. Não altere medicamentos por conta própria.
E os medicamentos para agressividade?
Existem situações em que medicamentos podem ser necessários. Mas eles não devem ser a primeira resposta automática para qualquer comportamento agressivo. Antes é necessário investigar causas físicas, ambientais, emocionais e relacionadas à comunicação.
A Alzheimer’s Association recomenda uma abordagem individualizada e destaca estratégias não medicamentosas como primeira linha de manejo. Quando a agitação ou agressividade é grave, persistente ou oferece risco, o médico pode avaliar a necessidade de tratamento medicamentoso. Nunca medique por conta própria.
E quero falar uma coisa para você, familiar
Talvez você esteja cansado. Talvez tenha levado um tapa. Talvez tenha ouvido uma palavra que doeu muito. Talvez tenha chorado escondido.
Não. Uma crise de agressividade não significa automaticamente que você está cuidando mal. A demência pode produzir comportamentos que estão completamente fora do padrão daquela pessoa. E cuidar disso é difícil. Muito difícil.
Você não precisa dar conta de tudo sozinho.
Para guardar no coração
Quando seu familiar com Alzheimer ficar agressivo, tente lembrar de uma sequência simples:
PRIMEIRO: segurança. Afaste riscos e dê espaço.
SEGUNDO: acalme o ambiente. Menos barulho, menos pessoas, menos estímulos.
TERCEIRO: acalme a comunicação. Fale devagar, baixo e com poucas palavras.
QUARTO: não confronte. Não tente provar que a pessoa está errada naquele momento.
QUINTO: procure a causa. Dor? Medo? Fome? Sede? Cansaço? Infecção? Medicamento? Confusão?
SEXTO: mude o foco. Uma música, uma caminhada, uma bebida, uma fotografia ou, como exploramos em detalhe em outro artigo, um bichinho de pelúcia que pode trazer conforto.
SÉTIMO: se foi uma mudança súbita ou existe risco, procure avaliação profissional.
E talvez a mensagem mais importante seja esta: por trás de muitos comportamentos difíceis existe uma necessidade que a pessoa não consegue mais comunicar. Quando ela grita, talvez esteja com medo. Quando empurra, talvez esteja tentando dizer “não entendi”. Quando bate, talvez esteja tentando afastar algo que percebe como ameaça.
Isso não significa aceitar violência. A família também precisa estar segura. Significa apenas tentar olhar para aquele comportamento com os olhos da doença.
Porque o Alzheimer pode modificar a memória, a percepção, o julgamento e a capacidade de comunicação. Mas isso não tira da pessoa a necessidade de ser tratada com dignidade. E não tira da família o direito de receber ajuda.
Cuidar também significa saber quando pedir ajuda.
Quando é uma emergência?
Se a pessoa estiver com agressividade intensa e houver risco imediato de ferimento grave para ela, para familiares ou para outras pessoas, procure atendimento de emergência. Não tente realizar contenção física sozinho. Em situações de violência ou risco iminente, o Ministério da Saúde orienta priorizar a segurança e, quando necessário, acionar os serviços de emergência.
O Dr. Marcelo Zalli é neurologista especialista em Alzheimer e demências, com participação recorrente na imprensa — incluindo reportagens sobre a doença na SBT News e no portal Menina FM, e outras matérias que você pode conferir na página de imprensa. Para avaliação neurológica de Alzheimer, agende uma consulta em Itajaí. Para quem prefere atendimento no litoral, agende uma consulta em Balneário Camboriú. Conheça também o currículo completo do Dr. Marcelo Zalli.
Importante
Este artigo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. A agressividade na demência pode ter causas diferentes e o tratamento depende da história clínica, estágio da doença, medicamentos, condições físicas, ambiente e características de cada paciente.
#Se o sono também é um desafio — despertares noturnos, agitação à noite, inversão do ciclo —, leia também: aprenda a melhorar o sono na demência de Alzheimer.
Fontes confiáveis
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado: Pessoas com Demência.
- Alzheimer’s Association — Aggression & Anger.
- Alzheimer’s Association — Anxiety & Agitation.
- National Institute on Aging (NIA/NIH) — Alzheimer’s Caregiving: Changes in Behavior.
Rede de conteúdo relacionado
Aprofunde-se nos temas conectados a este artigo — hubs, matérias e agendamento com o Dr. Marcelo Zalli.
Páginas principais
Mais sobre Memória
Alzheimer: por que o diagnóstico precoce ganhou importância com os novos tratamentos
Mais de 55 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2020. Com a chegada dos anticorpos monoclonais contra a beta-amiloide, identificar o Alzheimer em suas fases iniciais passou a ter consequências concretas sobre as possibilidades de tratamento.
Doença de Binswanger: demência vascular, sintomas, diagnóstico e tratamento
A Doença de Binswanger é uma forma de demência vascular ligada à doença cerebral de pequenos vasos, com lesão da substância branca. Entenda sintomas, alterações da marcha, achados na ressonância, diagnóstico diferencial com Alzheimer e tratamento com o Dr. Marcelo Zalli.
Síndrome do Pôr do Sol: o que é e como ajudar quem tem Alzheimer ao final do dia
A Síndrome do Pôr do Sol (sundowning) é o agravamento de confusão, ansiedade e agitação ao entardecer em pessoas com Alzheimer. Entenda por que acontece e o que famílias e cuidadores podem fazer.
Temas relacionados
Agende sua consulta
Avaliação neurológica em Itajaí e Balneário Camboriú — SC.
Leitura recomendada
Continue explorando sobre educação ao paciente
Hub de Alzheimer
Diagnóstico, biomarcadores e tratamento
Acessar página
Alzheimer: por que o diagnóstico precoce ganhou importância com os novos tratamentos
Mais de 55 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2020. Com a chegada dos anticorpos monoclonais contra a beta-amiloide, identificar o Alzheimer em suas fases iniciais passou a ter consequências concretas sobre as possibilidades de tratamento.

Doença de Binswanger: demência vascular, sintomas, diagnóstico e tratamento
A Doença de Binswanger é uma forma de demência vascular ligada à doença cerebral de pequenos vasos, com lesão da substância branca. Entenda sintomas, alterações da marcha, achados na ressonância, diagnóstico diferencial com Alzheimer e tratamento com o Dr. Marcelo Zalli.

Síndrome do Pôr do Sol: o que é e como ajudar quem tem Alzheimer ao final do dia
A Síndrome do Pôr do Sol (sundowning) é o agravamento de confusão, ansiedade e agitação ao entardecer em pessoas com Alzheimer. Entenda por que acontece e o que famílias e cuidadores podem fazer.
Materiais e e-books na Biblioteca Seu Neuro
Para aprofundar este tema, a Biblioteca Seu Neuro reúne e-books e materiais educativos gratuitos do Dr. Marcelo Zalli:
- Meu familiar tem Alzheimer, e agora? — Um guia acolhedor para familiares e cuidadores
- As Histórias que a Memória Não Apaga — Contos sobre Alzheimer, memória, amor e os vínculos que permanecem.
- Memory City — A técnica de memorização do Dr. Marcelo Zalli
Escrito e revisado por
Dr. Marcelo Zalli
Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326
Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas
Agende consulta com o Dr. Marcelo Zalli, neurologista em Itajaí e Balneário Camboriú — SC ou conheça mais o Dr. Marcelo Zalli, neurologista em Itajaí e Balneário Camboriú.
Consultório em Balneário Camboriú (Menara Medical Center — Ariribá) e em Itajaí (Petrus Centro Médico — Centro), no litoral de Santa Catarina.
Achou útil? Ajude outras pessoas a acessarem este material.
Compartilhe com familiares, amigos ou em grupos que possam se beneficiar.

