Educação ao paciente

Meu familiar com demência está acusando todo mundo de roubar suas coisas!

Por que a pessoa com demência acusa familiares de roubo, esconde objetos e fica desconfiada — e como a família pode lidar com acusações sem destruir o vínculo.

Meu familiar com demência está acusando todo mundo de roubar suas coisas!
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
11 min de leitura22 de agosto de 2026
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Por que isso acontece e como a família pode lidar com acusações, desconfiança e objetos escondidos

“Alguém roubou meu dinheiro.” “Cadê meu documento?” “Foi você que pegou!” “Todo mundo está mexendo nas minhas coisas.”

Para muitas famílias, esse é um dos momentos mais difíceis de lidar com a demência.

Porque existe algo muito doloroso quando a pessoa que você ama começa a olhar para você com desconfiança e dizer: “Você roubou minhas coisas.”

E, muitas vezes, a situação fica ainda mais complicada porque, além de acusar familiares e cuidadores, a própria pessoa pode começar a esconder objetos pela casa. Guarda o dinheiro em uma gaveta. Esconde os documentos. Coloca os óculos em um lugar inesperado. Depois não consegue mais encontrar. E então surge uma explicação que, para ela, parece fazer todo sentido: “Alguém roubou.”

Antes de discutir, corrigir ou tentar provar que ninguém roubou nada, existe uma coisa muito importante que a família precisa entender: para a pessoa com demência, aquela situação pode ser absolutamente real.

A Alzheimer’s Association explica que suspeitas e falsas acusações podem ocorrer na doença de Alzheimer, especialmente nas fases intermediárias e avançadas.

Idosa procurando objetos em gavetas, acolhida por familiar — demência e acusações de roubo


Primeiro: ela está mentindo?

Na maioria das vezes, não.

Quando alguém é acusado injustamente, a primeira reação pode ser: “Ela sabe que fui eu que não peguei. Está fazendo isso de propósito.”

Mas, na demência, uma explicação mais provável pode estar relacionada às alterações cognitivas. A pessoa pode realmente não lembrar onde colocou determinado objeto. Pode não reconhecer que foi ela mesma quem o guardou. E o cérebro tenta preencher essa lacuna. Se o dinheiro estava aqui e agora não está mais, surge uma explicação: “Alguém pegou.”

O National Institute on Aging explica que a paranoia na doença de Alzheimer pode estar relacionada à perda de memória: quando a pessoa não consegue lembrar onde colocou alguma coisa, pode concluir que outra pessoa a levou.

Por isso, muitas vezes, não estamos diante de uma mentira. Estamos diante de uma tentativa do cérebro de explicar aquilo que ele não consegue mais lembrar.


“Mas ela está me acusando de roubo!”

Eu sei. E isso dói.

Principalmente quando vem de uma pessoa que você ama e para quem você dedica boa parte da sua vida. Pode surgir raiva, tristeza, indignação.

Essa reação é humana. Você não precisa fingir que não se sente magoado. Mas existe uma diferença importante entre sentir a acusação e responder à acusação de forma que aumente o conflito.

A Alzheimer’s Association orienta que familiares procurem não levar as acusações para o lado pessoal, porque esses comportamentos podem ser consequência das alterações provocadas pela doença.


Não entre em uma disputa para provar que você está certo

— Você pegou meu dinheiro!

— Eu não peguei!

— Pegou sim!

— Você está ficando louca? Eu cuido de você o dia inteiro!

E a discussão começa. Quem ganha? Ninguém. A pessoa continua acreditando que foi roubada. O familiar fica magoado. A ansiedade aumenta.

O Ministério da Saúde orienta que, diante de situações envolvendo delírios e alterações comportamentais, a abordagem deve ser segura e que o confronto pode piorar a agitação.


Então o que eu respondo?

Você pode começar com algo simples:

“Eu sei que isso está te preocupando.”

Ou: “Vamos procurar juntos.”

Perceba que você não está dizendo “Sim, eu roubei.” Você também não está dizendo “Você está errada.” Você está reconhecendo a preocupação. A emoção é validada sem confirmar uma acusação que não corresponde à realidade.

Essa diferença é muito importante — e é o tema central de outro artigo sobre como conversar com uma pessoa com Alzheimer, onde abordamos a comunicação em cada fase da doença.


E se ela insistir: “Foi você!”

Uma resposta simples pode ser: “Eu não peguei. Mas vou ajudar você a procurar.”

E então mude o foco: “Vamos procurar na gaveta.” “Vamos olhar na bolsa.” “Vamos verificar o quarto.”

O NIA recomenda respostas simples, evitar discussões e, quando necessário, redirecionar a atenção para outra atividade.


E quando ela esconde os objetos?

A pessoa começa a guardar coisas em lugares inesperados. Coloca dinheiro dentro de uma gaveta de roupas. Guarda documentos dentro de uma panela. Esconde chaves.

O NIA descreve esse comportamento de procurar, mexer e esconder objetos como uma alteração que pode ocorrer na doença de Alzheimer.

E aqui existe um detalhe interessante: às vezes, a pessoa esconde o objeto para protegê-lo. Ela pode pensar: “Se eu guardar aqui, ninguém vai pegar.” O problema é que, depois, pode não conseguir lembrar onde guardou. E então surge a acusação: “Roubaram.”


Observe o padrão

Tente descobrir: Em quais horários isso acontece? Ela esconde principalmente dinheiro? Documentos? Objetos com valor emocional? Ela fica mais inquieta no final do dia?

Registrar esses padrões pode ajudar muito a equipe de saúde a compreender o comportamento. O NIA recomenda observar o que pode estar desencadeando o comportamento de procurar e esconder objetos e adaptar a resposta à causa provável.


Não esconda tudo dela

Uma reação comum da família é: “Então vamos tirar tudo do alcance dela.” Mas isso pode não ser a melhor solução. Se ela gosta de mexer em gavetas, pode ser possível deixar algumas gavetas com objetos seguros para que ela possa organizar, procurar e explorar.

A ideia não é impedir toda atividade. É tornar a atividade segura.


Crie lugares previsíveis para os objetos importantes

Uma estratégia muito útil é criar “lugares oficiais” para determinados objetos: Chaves → sempre no mesmo recipiente. Óculos → sempre na mesma mesa. Documentos → uma pasta específica.

Quanto mais previsível for o ambiente, mais fácil pode ser encontrar os objetos.


Itens duplicados podem aliviar o desgaste

A Alzheimer’s Association cita como exemplo manter itens duplicados quando uma pessoa frequentemente perde determinado objeto. Se ela costuma perder os óculos, ter um par reserva pode evitar uma crise desnecessária.

Isso pode funcionar com óculos, chaves, controles remotos. Obviamente, isso não se aplica a medicamentos, documentos importantes, cartões ou objetos que possam gerar risco.


Dinheiro merece atenção especial

A pessoa pode esconder dinheiro e depois acusar alguém de roubo. Pode entregar dinheiro para alguém acreditando estar pagando alguma coisa. Pode esquecer que já pagou. Pode ter dificuldade para compreender valores.

Por isso, conforme a doença progride, a família deve conversar com a equipe de saúde sobre estratégias para proteger a pessoa contra perdas financeiras, golpes e exploração.


Na fase inicial: envolva a pessoa

Nas fases iniciais da demência, a pessoa pode ainda ter boa capacidade para participar de decisões. Se ela começa a esconder objetos, não assuma imediatamente que tudo deve ser retirado dela.

Converse. Pergunte: “Você prefere guardar suas coisas aqui?” “Vamos escolher um lugar para deixar suas coisas?”

O objetivo não é tirar o controle da pessoa imediatamente. É adaptar o ambiente conforme as necessidades mudam.


Na fase moderada: simplifique o ambiente

Na fase moderada, as dificuldades de memória e orientação podem ser maiores. Uma casa mais organizada, com menos coisas espalhadas e locais definidos para os objetos de uso frequente, pode facilitar a vida.

Conhecer os estágios da doença de Alzheimer ajuda a família a entender em que momento da doença essas dificuldades estão aparecendo.


Na fase grave: segurança vem primeiro

Nas fases mais avançadas, a pessoa pode não conseguir compreender o valor ou a função de determinados objetos. Pode esconder medicamentos. Pode guardar produtos de limpeza. Pode colocar objetos pequenos na boca.

Aqui, a prioridade passa a ser segurança. Produtos tóxicos, medicamentos, objetos cortantes e outros itens potencialmente perigosos devem ser mantidos fora do alcance.


Quando a acusação aparece de repente, atenção

Imagine que uma pessoa que nunca teve esse comportamento começa, de uma hora para outra, a acusar todo mundo de roubo. Ou passa a ficar extremamente desconfiada. Ou começa a apresentar alucinações.

Isso precisa ser avaliado. Não devemos assumir automaticamente que seja apenas “a demência avançando”. Mudanças agudas podem estar associadas a condições clínicas, medicamentos, infecções, dor ou outras causas.


E quando ela acusa uma pessoa específica?

Isso pode ser ainda mais doloroso. “Foi minha filha.” “Foi meu marido.” “Foi a cuidadora.”

Mas antes de romper um vínculo ou tomar decisões importantes com base apenas na acusação, é fundamental considerar o contexto. Uma acusação pode ser consequência da doença. Ao mesmo tempo, isso não significa que toda acusação deva ser automaticamente descartada. Se existe uma suspeita concreta de abuso, negligência ou exploração financeira, a situação precisa ser investigada.

O equilíbrio é: não acreditar automaticamente em toda acusação, mas também não ignorar automaticamente toda acusação.


Quando a desconfiança vira paranoia?

Na doença de Alzheimer, podem ocorrer delírios — crenças falsas mantidas com convicção, mesmo quando não há evidências que as sustentem. Um exemplo é acreditar firmemente que alguém está roubando seus objetos.

Nesse momento, discutir lógica geralmente não resolve. Você pode apresentar provas, mostrar a gaveta, mostrar o dinheiro, explicar — e, mesmo assim, a pessoa pode continuar acreditando.

É por isso que a estratégia precisa mudar. Menos argumentação. Mais acolhimento e segurança.


Não ria. Não humilhe. Não faça brincadeiras

Diante de uma acusação repetitiva, algumas famílias acabam brincando: “Lá vem ela dizer que roubaram de novo!” Mesmo que pareça uma brincadeira, isso pode ser profundamente humilhante para a pessoa.

Respeito continua sendo necessário em todas as fases da demência.


O familiar também precisa de proteção emocional

Existe algo que poucas pessoas falam: ser acusado injustamente por alguém que você ama machuca.

Você pode entender racionalmente que é a doença. Mas, emocionalmente, ainda dói. Não guarde tudo sozinho. Converse com outros familiares. Dividam o cuidado. Procurem orientação profissional.


Para guardar no coração

Se o seu familiar com demência está acusando todo mundo de roubar suas coisas, respire.

Não transforme a acusação em uma batalha. Não tente provar a todo custo que ela está errada. Observe. Procure. Simplifique. Organize o ambiente.

Às vezes, aquilo que parece uma acusação pode ser a maneira que o cérebro encontrou para explicar uma perda de memória. Às vezes, esconder um objeto é uma tentativa de proteger aquilo que é importante.

Ela pode ter esquecido onde colocou o objeto. Mas não precisamos esquecer quem ela é.

E, mesmo quando a doença muda a maneira como ela percebe o mundo, nosso papel não é apenas corrigir aquilo que ela acredita. É ajudá-la a se sentir segura dentro desse mundo que, para ela, pode estar ficando cada vez mais difícil de compreender.

Cuidar também é isso: aprender a não transformar cada erro da memória em um conflito, mas em uma oportunidade de oferecer segurança, respeito e presença.


Quando procurar ajuda profissional?

Procure avaliação médica quando as acusações forem novas, muito intensas ou acompanhadas de alucinações, agitação importante, agressividade, confusão súbita, alteração do nível de consciência, febre, dor, mudanças importantes do sono ou outros sintomas físicos. Mudanças comportamentais novas ou abruptas merecem investigação de causas clínicas potencialmente tratáveis.

O Dr. Marcelo Zalli é neurologista especialista em Alzheimer e demências, com participação recorrente na imprensa — incluindo reportagens sobre a doença na SBT News e no portal Menina FM, e outras matérias que você pode conferir na página de imprensa. Para avaliação neurológica de memória ou Alzheimer, agende uma consulta em Itajaí ou agende uma consulta em Balneário Camboriú. Conheça também o currículo completo do Dr. Marcelo Zalli.

Importante

Este artigo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. Acusações de roubo, desconfiança, esconder objetos e outros comportamentos podem ocorrer em diferentes tipos de demência e podem ter causas variadas. A estratégia de cuidado deve considerar o diagnóstico, o estágio da doença, as condições clínicas, os medicamentos utilizados, o ambiente e a história individual da pessoa.

Fontes confiáveis

  • Ministério da Saúde — Linha de Cuidado: Pessoas com Demência.
  • National Institute on Aging (NIA/NIH) — Coping With Alzheimer’s Behaviors: Rummaging and Hiding Things.
  • National Institute on Aging (NIA/NIH) — Alzheimer’s Caregiving: Coping With Hallucinations, Delusions, and Paranoia.
  • Alzheimer’s Association — Suspicions and Delusions.
  • Ministério da Saúde — Guia Prático do Cuidador.

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  • As Histórias que a Memória Não Apaga — Contos sobre Alzheimer, memória, amor e os vínculos que permanecem.
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Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas

Material educativo de auxílio a pacientes e familiares
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