Educação ao paciente

Quando o idoso com demência fica agitado: uma estratégia simples que pode trazer conforto

Uma estratégia simples — uma bonequinha de pano ou um bichinho de pelúcia — que pode trazer conforto quando o idoso com demência fica agitado, ansioso ou diz que quer ir embora.

Quando o idoso com demência fica agitado: uma estratégia simples que pode trazer conforto
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
10 min de leitura22 de agosto de 2026
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Quando o idoso com demência fica agitado: uma estratégia simples que pode trazer conforto

Existe uma cena que muitas famílias que convivem com a demência conhecem muito bem. O paciente começa a andar de um lado para o outro. Pergunta várias vezes a mesma coisa. Diz que precisa ir embora. Quer voltar para casa. Fica inquieto, ansioso, mexendo nas coisas.

E a família tenta de tudo. Conversa. Explica. Pede para ele ficar. Diz que está em casa. Tenta distraí-lo. Mas, muitas vezes, quanto mais explicamos, mais ele se angustia.

E é justamente nesses momentos que uma estratégia muito simples pode ajudar. Uma estratégia que, ao longo de mais de 10 anos orientando famílias de pessoas com demência moderada e avançada, tenho utilizado e que continua me surpreendendo pelos resultados. É algo muito simples: uma bonequinha de pano ou um bichinho de pelúcia.

Idoso segurando um bichinho de pelúcia — estratégia de conforto na agitação da demência

Mas existe uma maneira importante de utilizar esse objeto. E existe uma razão para isso.


Antes de tudo: precisamos entender a agitação

Quando uma pessoa com Alzheimer ou outra demência fica agitada, precisamos lembrar que aquele comportamento pode ser uma forma de comunicação. Ela pode estar com dor. Pode estar cansada. Com fome ou sede. Pode estar precisando ir ao banheiro. Pode estar com medo. Pode estar confusa.

As diretrizes do NICE recomendam que, diante de agitação ou sofrimento na demência, sejam investigadas possíveis causas clínicas e ambientais, como dor, delirium, desconforto, infecção, excesso de estímulos ou cuidados inadequados.

Por isso, essa estratégia da bonequinha não deve ser entendida como uma solução para qualquer episódio de agitação. Primeiro precisamos perguntar: “Por que esse paciente está agitado?”


Por que uma bonequinha ou um bichinho de pelúcia pode ajudar?

Talvez você esteja pensando: “Mas doutor, meu pai tem 80 anos. Uma boneca não vai parecer infantil?”

Essa é justamente uma das preocupações mais importantes. Não estamos querendo tratar um adulto como criança. Muito pelo contrário. O objetivo é encontrar algo que possa despertar uma memória afetiva, uma sensação de cuidado ou uma lembrança emocional antiga.

A demência não apaga todas as memórias ao mesmo tempo. As lembranças mais recentes costumam ser particularmente vulneráveis, enquanto determinadas memórias mais antigas, emocionais e relacionadas à identidade podem permanecer acessíveis por mais tempo.

A Alzheimer’s Society reconhece o uso de objetos, música, fotografias e outras referências pessoais como recursos de reminiscência, que podem ajudar a preservar autoestima, identidade e conexão com experiências do passado.

E, especificamente para pessoas em fases mais avançadas da demência, a própria Alzheimer’s Society cita bonecas e brinquedos de pelúcia entre atividades que podem ajudar a aliviar tédio ou agitação e proporcionar sensação de calma, conexão, propósito e cuidado.

É importante compreender uma coisa: não é a boneca que é terapêutica por si só. O que pode ser terapêutico é aquilo que aquele objeto representa para aquela pessoa.


Como eu oriento a família a fazer

Imagine que seu familiar esteja sentado na sala. Ele começa a dizer: “Eu preciso ir embora.” Você responde: “Mas você está em casa.” Ele insiste: “Não. Eu preciso ir para casa.” Você explica: “Essa é a sua casa. Você mora aqui há muitos anos.” Ele não aceita.

Nesse momento, em vez de continuar tentando convencê-lo pela lógica — algo que abordamos em detalhe no artigo sobre como conversar com uma pessoa com Alzheimer —, você pode experimentar uma abordagem diferente.

Pegue uma bonequinha de pano ou um bichinho de pelúcia, de preferência algo agradável, simples, macio e que não tenha aparência excessivamente infantil. E coloque o objeto próximo da pessoa. Não precisa colocar na mão dela. Não precisa dizer: “Olha que bonitinha!” Simplesmente deixe o objeto ali. Em cima de uma poltrona. Na mesa. Ao lado dela. E observe.


Não entregue diretamente

Essa é uma parte muito importante da estratégia. Não coloque o objeto diretamente na mão do paciente. Deixe que ele perceba.

Talvez ele olhe. Talvez ignore. Talvez toque. Talvez pegue. Talvez pergunte: “O que é isso?”

Se ele perguntar, você pode responder de maneira muito natural: “Ah, deixaram isso aqui. Se você quiser, pode ficar com ele.” E pare por aí.

Não transforme o objeto em um procedimento médico. É apenas um objeto que apareceu ali. E a pessoa decide se quer se aproximar dele. Isso é muito importante para preservar autonomia e dignidade.


E então acontece algo muito interessante

Às vezes, o paciente pega a bonequinha. Coloca no colo. Faz um carinho. Abraça. Conversa com ela. E, naquele momento, você pode perceber uma mudança. A respiração fica mais tranquila. A inquietação diminui. Ele para de perguntar que precisa ir embora. Senta. Fica mais tranquilo.

Talvez aquele objeto tenha despertado alguma coisa. Uma lembrança. Uma sensação. Um papel que aquela pessoa exerceu durante a vida. Talvez tenha sido mãe. Talvez tenha cuidado dos filhos. Talvez tenha tido uma boneca na infância.

Nós não conseguimos saber exatamente o que acontece dentro da experiência subjetiva daquela pessoa. Mas podemos observar o efeito. Se traz conforto, se acalma e se torna significativo, podemos utilizar.


E se ele não gostar?

Não aconteceu nada de errado. Simplesmente retire ou deixe o objeto de lado. Talvez ele não tenha nenhuma conexão com aquilo. Talvez prefira um bichinho. Talvez goste de uma almofada. Talvez prefira uma fotografia.

A estratégia precisa ser individualizada.


“Quero ir embora!”

Essa é uma das situações em que costumo orientar que a família experimente essa estratégia.

Em vez de entrar em uma discussão, você pode se aproximar e dizer: “Está bem. Vamos sentar um pouquinho.” E deixar a bonequinha ou o bichinho próximo.

Talvez ele pegue. Talvez comece a cuidar. Talvez mude o foco. E, se isso acontecer, não precisamos ficar perguntando: “Você ainda quer ir embora?” Deixe o momento seguir naturalmente.


Existe uma coisa muito bonita nessa estratégia

Talvez o objeto permita que aquela pessoa volte, por alguns instantes, a um lugar emocional conhecido. Pode ser simplesmente uma sensação: cuidar. proteger. acolher. ter alguém por perto. sentir-se necessário.

Isso é particularmente importante porque a demência pode fazer com que a pessoa perca progressivamente algumas funções que durante toda a vida ajudaram a definir quem ela era. E, quando tudo isso desaparece, pode surgir uma pergunta silenciosa: “Qual é o meu lugar agora?”

Talvez cuidar de uma bonequinha ou de um bichinho seja, para algumas pessoas, uma pequena oportunidade de continuar exercendo um papel de cuidado.


Mas atenção: não infantilize

Essa talvez seja a regra mais importante de todas. Estamos diante de um adulto. Não devemos falar com ele como se fosse uma criança. Não devemos usar voz infantil.

A abordagem deve ser natural. A boneca ou o bichinho é apenas um objeto significativo, se a pessoa assim o perceber. E se ela não quiser, simplesmente não usamos.


Não escolha pela pessoa

Não existe “a boneca perfeita”. Talvez uma pessoa goste de uma bonequinha de pano. Outra prefira um ursinho. Outra, um cachorro de pelúcia. O que importa é a conexão individual.

A Alzheimer’s Society orienta que, quando se utiliza uma boneca ou animal de brinquedo, é importante considerar características como textura, cor e aparência e, sempre que possível, permitir que a própria pessoa escolha o objeto.


E se ele começar a cuidar demais do bichinho?

Se ele quiser cobrir. Dar comida. Colocar para dormir. Carregar. Conversar. Tudo bem, desde que isso não cause risco ou sofrimento. Pode ser uma atividade significativa.


Quando a bonequinha deve ficar de lado?

Se o paciente não demonstra interesse, deixe o objeto de lado. Se ficar irritado com o objeto, retire. Se tentar colocar o objeto na boca e houver risco de engasgo, retire. Segurança sempre vem primeiro.


E não devemos esquecer das causas da agitação

Aqui faço uma ressalva muito importante como neurologista. Uma bonequinha não trata a causa da agitação.

Se o paciente ficou subitamente muito agitado, precisamos investigar. Dor? Infecção? Constipação? Retenção urinária? Desidratação? Alteração de medicamentos?

O NICE recomenda uma avaliação estruturada antes de iniciar intervenções para sofrimento, agitação ou agressividade, justamente para identificar e tratar causas clínicas e ambientais.

Essa mesma orientação — não atribuir automaticamente toda mudança comportamental à evolução da doença — aparece em outros artigos sobre familiar com demência acusando de roubo, recusa ao banho e quando o familiar com Alzheimer fica agressivo, onde abordamos como mudanças súbitas merecem investigação clínica.


Uma estratégia simples não significa uma estratégia superficial

Às vezes, na medicina, nós procuramos soluções muito sofisticadas. Medicamentos. Exames. Tecnologias. Protocolos.

Mas, no cuidado da pessoa com demência, algumas das ferramentas mais importantes podem ser extremamente simples. Uma música. Uma fotografia. Uma conversa. Uma caminhada. Um objeto conhecido. Um bichinho de pelúcia.

O que faz a diferença não é necessariamente o valor ou a sofisticação do objeto. É o significado que ele pode adquirir para aquela pessoa.


Para a família que está lendo este artigo

Talvez você esteja cansado. Talvez seu pai esteja dizendo há horas que quer ir embora. Talvez sua mãe esteja andando pela casa sem parar. Talvez você já tenha explicado vinte vezes que ela está em casa.

Eu gostaria de propor que, em um momento tranquilo, você experimente algo muito simples. Coloque próximo dela uma bonequinha de pano. Ou um bichinho de pelúcia. Não entregue. Não force. Não diga que aquilo é uma terapia. Não infantilize. Apenas coloque próximo.

Observe. Talvez ela ignore. Tudo bem. Talvez pergunte o que é. Você pode dizer: “Deixaram aqui. Se você quiser, pode ficar com ele.” E veja o que acontece.


Talvez o que ela esteja procurando não seja uma casa

Quando uma pessoa com demência diz: “Eu quero ir para casa.” Nós, muitas vezes, pensamos que ela está falando de um endereço. Mas será que sempre é isso?

Talvez “casa” seja a casa onde criou os filhos. Talvez seja a casa da infância. Talvez seja a sensação de segurança que existia quando seus pais ainda estavam vivos.

Talvez seja simplesmente o desejo de voltar para um lugar onde se sentia protegida. E talvez um objeto familiar consiga oferecer, por alguns minutos, exatamente aquilo que a pessoa está procurando: um pouco de segurança.


Uma última mensagem para você, familiar

Você não precisa encontrar uma solução perfeita. Na demência, muitas vezes precisamos experimentar. Observar. Adaptar. Tentar novamente.

Porque cada paciente é único. Cada história é diferente. Mas não tenha medo de experimentar estratégias simples, humanas e individualizadas. Uma bonequinha. Um ursinho. Uma fotografia. Uma música.

Às vezes, aquilo que parece pequeno para nós pode ter um significado enorme para quem vive com demência.

Porque a doença pode apagar algumas lembranças. Mas nem sempre consegue apagar a necessidade de amar, cuidar, proteger e ser acolhido.


Quando procurar ajuda profissional?

Se houver agitação súbita ou intensa, mudança importante do comportamento, dor, febre, alteração do nível de consciência, queda ou risco de agressão, é importante procurar avaliação médica. As intervenções não farmacológicas devem complementar — e não substituir quando indicada — a investigação e o tratamento das causas clínicas.

Para avaliação neurológica de demência e Alzheimer, agende uma consulta em Itajaí. Para quem prefere atendimento no litoral, agende uma consulta em Balneário Camboriú.

O Dr. Marcelo Zalli é neurologista especialista em Alzheimer e demências, com participação recorrente na imprensa — incluindo reportagens sobre a doença na SBT News e no portal Menina FM, e outras matérias que você pode conferir na página de imprensa. Conheça também o currículo completo do Dr. Marcelo Zalli.

Importante

Esta estratégia é uma possibilidade de intervenção não farmacológica e não substitui a avaliação da causa da agitação. Deve ser utilizada de forma individualizada, respeitando a aceitação, a dignidade e a segurança do paciente.

Se o sono também é um desafio — despertares noturnos, agitação à noite, inversão do ciclo —, leia também: aprenda a melhorar o sono na demência de Alzheimer.


Referências confiáveis

  • NICE — Dementia: assessment, management and support for people living with dementia and their carers.
  • NICE — Quality statement: Managing distress.
  • Alzheimer’s Society — Non-drug approaches to changes in mood and behaviour.
  • Alzheimer’s Society — Dolls, toys and models.
  • Alzheimer’s Society — Reminiscence.

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Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas

Material educativo de auxílio a pacientes e familiares
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