Educação ao paciente

Quando o idoso com Alzheimer se perde: o que a família precisa fazer

Quando o idoso com Alzheimer se perde, a família precisa agir rápido. Entenda por que acontece, sinais de alerta, prevenção, identificação, GPS, adaptação da casa e como agir em caso de desaparecimento.

Quando o idoso com Alzheimer se perde: o que a família precisa fazer
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
11 min de leitura22 de agosto de 2026
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Uma das situações que mais assusta uma família que cuida de uma pessoa com Alzheimer é receber uma ligação dizendo: “Ele saiu de casa e não conseguimos encontrá-lo.”

Nesse momento, o medo toma conta. Mas é justamente nessa hora que precisamos transformar o desespero em ação.

Uma pessoa com Alzheimer que desaparece precisa ser procurada imediatamente. Não devemos esperar algumas horas para ver se ela volta. A desorientação espacial e o comportamento de sair de casa podem acontecer em diferentes fases da doença e podem representar um risco importante para a segurança.

PRIMEIRO: NÃO ESPERE

Se você percebeu que seu familiar desapareceu, comece a procura imediatamente.

Verifique primeiro os locais próximos à residência e os lugares que fazem parte da rotina daquela pessoa. Procure em ruas próximas, jardins, praças, pontos de ônibus, igrejas, mercados, antigos locais de trabalho, casas onde costumava frequentar e outros lugares que tenham significado para sua história.

A Alzheimer’s Association recomenda iniciar a busca imediatamente e, se a pessoa não for localizada rapidamente, acionar as autoridades e informar claramente que se trata de uma pessoa com demência.

Não pense: “Ele deve estar voltando para casa.” Ele pode não saber mais como voltar.

Idoso sozinho em uma rua urbana, desorientado, procurando direção à tarde

POR QUE ISSO ACONTECE?

O Alzheimer pode comprometer a capacidade de reconhecer lugares familiares, compreender onde está e encontrar caminhos conhecidos.

A pessoa pode sair de casa porque acredita que precisa “ir trabalhar”, “buscar alguém”, “ir para casa” ou cumprir alguma obrigação antiga. Também pode simplesmente caminhar sem um destino claro.

Às vezes, o paciente está dentro da própria casa e diz:

“Eu preciso ir para casa.”

Ou:

“Meu filho está me esperando.”

Ou:

“Tenho que ir trabalhar.”

Para a família, aquilo parece não fazer sentido. Mas, para o paciente, aquela necessidade pode ser absolutamente real naquele momento.

Não é teimosia. Não é simplesmente vontade de contrariar a família. É uma alteração causada pela doença.

UM DETALHE MUITO IMPORTANTE: CONHEÇA A HISTÓRIA DELE

Quando alguém com Alzheimer se perde, precisamos pensar: para onde essa pessoa poderia estar tentando ir?

  • Onde ela trabalhou durante muitos anos?
  • Onde morou antigamente?
  • Qual igreja frequentava?
  • Qual mercado costumava ir?
  • Qual restaurante gostava?
  • Onde moravam antigos amigos?
  • Qual caminho fazia todos os dias?

A memória de fatos recentes pode estar comprometida, mas determinados hábitos e referências antigas podem permanecer por muito tempo. Por isso, conhecer a história de vida do paciente também é uma ferramenta de segurança.

PREVENÇÃO: NÃO ESPERE ELE SE PERDER PARA COMEÇAR A PROTEGER

Se seu familiar já demonstra sinais de desorientação, vontade de sair sozinho, dificuldade para encontrar o caminho de volta ou retorna de caminhadas mais tarde do que o habitual, o risco já existe.

Algumas medidas simples podem ajudar:

  • Mantenha uma fotografia recente do paciente.
  • Tenha os telefones dos familiares facilmente acessíveis.
  • Considere identificação com nome e telefone de contato.
  • Converse com vizinhos de confiança.
  • Avise pessoas próximas sobre a condição do paciente.
  • Considere dispositivos de localização por GPS, quando apropriados.
  • Utilize alarmes ou sensores nas portas quando houver risco de saída não supervisionada.
  • Mantenha uma rotina estruturada e atividades significativas durante o dia.

Essas medidas não eliminam completamente o risco, mas podem aumentar muito a possibilidade de encontrar rapidamente a pessoa caso ela saia.

IDENTIFICAÇÃO: UMA MEDIDA SIMPLES QUE PODE FAZER DIFERENÇA

Se o paciente ainda aceita utilizar objetos pessoais, uma pulseira ou outro identificador pode conter nome e telefone de contato de um familiar.

Se houver risco de ele retirar a pulseira, existem outras alternativas, como identificação discretamente incorporada às roupas.

Também vale manter no celular dos familiares uma fotografia recente, de rosto e corpo inteiro, que possa ser rapidamente compartilhada caso seja necessário pedir ajuda.

Isso parece uma coisa pequena. Mas, numa situação de desaparecimento, pode ser fundamental.

GPS: PODE SER UMA FERRAMENTA MUITO ÚTIL

Atualmente existem dispositivos e sistemas de localização que podem ajudar a família a saber onde está uma pessoa que apresenta risco de se perder. Alguns funcionam por GPS e podem enviar alertas quando o indivíduo se afasta de determinada área.

Mas é importante lembrar que tecnologia não substitui supervisão. Ela é uma camada adicional de segurança.

E a escolha do dispositivo precisa considerar se o paciente aceita utilizá-lo, se consegue carregá-lo e se a família sabe utilizar corretamente o sistema.

E AS PORTAS DE CASA?

Se existe risco de o paciente sair sozinho, podemos adaptar o ambiente.

Alarmes sonoros ou sensores que avisam quando uma porta é aberta podem ajudar. Algumas famílias utilizam fechaduras ou mecanismos que dificultam a saída não supervisionada.

Mas existe uma orientação fundamental: nunca devemos criar uma situação em que o paciente fique preso dentro de casa sem possibilidade de saída em uma emergência.

A segurança contra incêndio e outras emergências precisa ser preservada. E também não devemos simplesmente trancar uma pessoa com demência sozinha em casa.

Já abordamos em outro artigo como adaptar a casa de forma segura e acolhedora para a pessoa com demência de Alzheimer. Para conhecer as orientações completas sobre iluminação, sinalização, banheiro, quarto e prevenção de quedas, vale a leitura: Casa segura e adaptada para a pessoa com demência de Alzheimer.

OBSERVE OS HORÁRIOS

Alguns pacientes ficam mais inquietos no final da tarde ou começo da noite, período frequentemente chamado de “sundowning” ou síndrome do entardecer.

Se você percebe que seu familiar costuma querer sair nesse horário, tente antecipar a situação.

  • Faça uma atividade agradável.
  • Caminhe com ele.
  • Converse.
  • Ofereça uma atividade conhecida.
  • Organize o ambiente.
  • Evite excesso de estímulos.

A Alzheimer’s Association recomenda identificar os horários em que o paciente costuma tentar sair e programar atividades e exercícios nesses períodos, quando apropriado.

“ELE QUER IR PARA CASA, MAS ELE JÁ ESTÁ EM CASA”

Essa é uma situação muito comum.

E aqui eu quero fazer uma recomendação muito importante: não transforme isso em uma discussão de lógica.

Se ele disser:

“Quero ir para casa.”

Não precisamos responder:

“Mas você está em casa!”

Porque talvez ele não consiga compreender essa informação naquele momento.

Podemos dizer:

“Claro. Vamos ficar aqui um pouco. Está tudo bem.”

E então redirecionar:

“Vamos tomar um café?”

“Vamos sentar um pouco?”

“Olha essa fotografia.”

“Vamos ouvir aquela música que você gosta?”

Às vezes, o que o paciente está procurando não é necessariamente uma casa. Ele pode estar procurando uma sensação de segurança, familiaridade ou pertencimento.

E SE ELE JÁ ESTIVER NA RUA?

Se você encontrar o paciente, a primeira coisa é não repreendê-lo.

Não diga:

  • “Você ficou louco?”
  • “Você não podia ter feito isso!”
  • “Você quase matou todo mundo do coração!”

Eu sei que a família está desesperada. Mas naquele momento, o paciente também pode estar assustado e confuso.

Aproxime-se com calma. Chame pelo nome.

Diga:

“Ainda bem que encontramos você.”

“Vamos voltar para casa.”

Se possível, ofereça uma atividade ou motivo concreto para acompanhá-lo de volta.

Acolher não significa concordar com o comportamento. Significa conseguir conduzir a pessoa para um lugar seguro sem aumentar a confusão.

QUANDO ELE SE PERDE, NÃO É HORA DE PROCURAR CULPADOS

Essa mensagem é especialmente para os familiares.

Depois que o paciente é encontrado, muitas vezes começam as acusações:

  • “Foi você que deixou a porta aberta.”
  • “Você deveria ter ficado olhando.”
  • “Eu falei que isso ia acontecer.”

Mas naquele momento, precisamos primeiro cuidar do paciente.

Depois, com calma, a família deve sentar e perguntar:

  • O que aconteceu?
  • Em que horário ele saiu?
  • Por qual porta?
  • Para onde provavelmente foi?
  • O que podemos modificar na casa?
  • Precisamos de identificação?
  • Um GPS ajudaria?
  • Precisamos aumentar a supervisão?
  • Existe algum comportamento que está aparecendo antes das tentativas de saída?

Cada episódio precisa servir para melhorar o plano de segurança.

UMA ESTRATÉGIA MUITO IMPORTANTE: MANTER O PACIENTE OCUPADO

O paciente com demência não precisa ficar parado o dia inteiro.

Uma rotina com atividades significativas pode ajudar a diminuir inquietação e comportamentos de perambulação em algumas pessoas.

Pode ser:

  • dobrar roupas.
  • organizar objetos.
  • regar plantas.
  • ouvir música.
  • caminhar acompanhado.
  • fazer exercícios.
  • participar de uma receita.
  • olhar fotografias.
  • conversar sobre acontecimentos antigos.

Não precisamos procurar atividades sofisticadas. Precisamos procurar atividades que tenham significado.

NAS FASES LEVE, MODERADA E AVANÇADA

Na fase leve, o paciente pode ainda circular pela comunidade com alguma autonomia, mas sinais como se perder em lugares conhecidos, esquecer trajetos ou voltar mais tarde do que o habitual devem ser avaliados.

Na fase moderada, a necessidade de supervisão geralmente aumenta. Passeios devem ser acompanhados, e a casa precisa estar preparada para evitar saídas não supervisionadas.

Na fase avançada, a pessoa pode não compreender mais adequadamente onde está, quem está ao seu redor ou para onde deseja ir. Nessa fase, a prioridade é segurança, conforto, supervisão e prevenção de situações de risco.

E QUANDO O PACIENTE DIZ QUE PRECISA SAIR?

Pare. Escute. Tente entender o que ele acredita que precisa fazer.

  • Talvez esteja procurando alguém.
  • Talvez queira voltar para um lugar onde morou.
  • Talvez esteja tentando cumprir uma obrigação antiga.
  • Talvez esteja ansioso.
  • Talvez esteja com dor, fome, sede, vontade de ir ao banheiro ou desconforto.

O comportamento é uma comunicação. Antes de simplesmente impedir, procure entender o que aquele comportamento está tentando expressar.

UMA MENSAGEM PARA A FAMÍLIA

Eu sei o tamanho do medo que existe quando alguém com Alzheimer desaparece.

Mas quero que você guarde uma coisa: prevenção começa antes do desaparecimento.

Se o paciente já apresenta sinais de desorientação, comece a preparar a família.

  • Tenha fotografias.
  • Tenha contatos.
  • Organize a identificação.
  • Converse com vizinhos.
  • Considere tecnologia de localização.
  • Adapte a casa.
  • Observe os horários de maior risco.
  • Mantenha uma rotina.

E, principalmente, não deixe essa responsabilidade pesar sobre uma única pessoa. Cuidar de alguém com Alzheimer é uma tarefa que precisa ser compartilhada.

SE ELE DESAPARECER, LEMBRE:

  • Não espere.
  • Comece a procurar imediatamente.
  • Verifique os locais próximos.
  • Pense nos lugares que fazem parte da história dele.
  • Peça ajuda aos familiares e vizinhos.
  • Entre em contato com as autoridades e informe que se trata de uma pessoa com demência.

A Alzheimer’s Association orienta que a busca seja iniciada imediatamente e que, se a pessoa não for encontrada rapidamente, as autoridades sejam acionadas.

PARA TERMINAR, UMA MENSAGEM QUE GOSTARIA DE DEIXAR À FAMÍLIA

Quando uma pessoa com Alzheimer se perde, não é apenas o caminho de volta para casa que ela pode ter perdido.

Às vezes, ela perdeu temporariamente a capacidade de compreender onde está.

E é por isso que precisamos ser o mapa que ela já não consegue carregar dentro da própria cabeça.

A identificação, a rotina, a casa adaptada, a supervisão, a tecnologia e uma família preparada podem fazer uma diferença enorme.

Não espere o primeiro desaparecimento para se preparar.

Se existe risco, comece hoje.

Porque, quando falamos de demência, prevenir não é exagerar. É cuidar antes que o perigo aconteça.

Dr. Marcelo Zalli — Médico Neurologista


IMPORTANTE

O risco de se perder pode ocorrer em diferentes fases da doença. Se o paciente apresentar episódios de desorientação, tentativa de sair sozinho ou mudanças repentinas de comportamento, converse com o neurologista responsável. Uma piora súbita da confusão ou desorientação também pode ter outras causas médicas, como infecção, desidratação ou efeitos de medicamentos, e merece avaliação.

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Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas

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