Educação ao paciente

Alimentação e hidratação na demência: como cuidar sem transformar a refeição em uma batalha

Comer e beber são necessidades básicas, mas na demência podem se tornar um desafio. Aprenda estratégias práticas para cuidar da alimentação e hidratação sem transformar a refeição em uma batalha — respeitando autonomia, dignidade e segurança.

Alimentação e hidratação na demência: como cuidar sem transformar a refeição em uma batalha
MZ Dr. Marcelo ZalliNeurologista · CRM-SC 17333 | RQE 13326
15 min de leitura22 de agosto de 2026
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Se existe uma preocupação que aparece com muita frequência entre os familiares de uma pessoa com demência, é esta: "Doutor, ele não está querendo comer." Ou então: "Ela não bebe água." "Ele só quer comer doce." "Ela esquece que acabou de almoçar." "Está colocando comida na boca e não engole." "Está emagrecendo." "Tenho medo de ela engasgar."

E eu quero começar dizendo uma coisa muito importante para você, familiar: alimentar uma pessoa com demência não é apenas colocar comida no prato.

É compreender o momento da doença, respeitar a pessoa, adaptar o ambiente, observar as mudanças e, principalmente, perceber quando aquela dificuldade pode estar escondendo um problema que precisa ser investigado.

Porque comer e beber são necessidades básicas, mas também podem estar relacionados a memória, autonomia, prazer, rotina, emoções e dignidade.

QUANDO A ALIMENTAÇÃO COMEÇA A MUDAR

A demência pode modificar a relação da pessoa com a comida.

Algumas pessoas passam a comer menos. Outras parecem nunca estar satisfeitas e pedem comida repetidamente. Algumas esquecem que acabaram de comer. Outras deixam de reconhecer determinados alimentos.

Pode haver mudanças no paladar e no olfato, dificuldades para utilizar talheres, problemas para mastigar ou engolir e até dificuldade para compreender o que fazer diante de um prato de comida.

E aqui está uma coisa que eu gostaria que toda família soubesse: não é simplesmente "manha". Não é necessariamente falta de vontade. A doença pode realmente interferir na capacidade de organizar e realizar a alimentação.

Por isso, precisamos adaptar o cuidado.

NÃO TRANSFORME A REFEIÇÃO EM UMA DISPUTA

Imagine a seguinte situação: você prepara o almoço, coloca o prato na mesa e diz: "Vamos comer."

O paciente olha para você e responde: "Não quero."

Você insiste: "Mas você precisa comer."

Ele recusa novamente. Você insiste mais. Ele se irrita. Você fica nervoso. E, quando percebe, o almoço virou uma batalha.

Talvez possamos fazer diferente. Em vez de transformar a alimentação em uma obrigação, tente tornar aquele momento mais agradável.

Sente-se próximo. Fale com calma. Mostre a comida. Diga o que está no prato. Se ele ainda consegue se alimentar sozinho, permita. Se precisar de ajuda, ofereça. Ajude sem retirar a autonomia que ainda existe.

O National Institute on Aging recomenda permitir que a pessoa se alimente sozinha quando possível, oferecendo orientação gentil e paciência quando houver necessidade de auxílio.

UMA DICA SIMPLES: OBSERVE O QUE ELE GOSTA

Às vezes a família prepara uma alimentação absolutamente saudável, mas que não desperta nenhum interesse naquele paciente.

E eu pergunto: "O que ele gostava de comer antes da doença?"

Qual era o café da manhã? Gostava de pão? Frutas? Sopa? Arroz e feijão? Comida caseira? Qual era aquela sobremesa que fazia parte da história da família?

As preferências alimentares e os sabores podem mudar na demência, mas conhecer a história alimentar da pessoa pode ajudar a construir refeições mais familiares e agradáveis. A alimentação não precisa ser sofisticada. Muitas vezes, o familiar precisa apenas voltar para aquilo que é familiar.

E SE ELE SÓ QUER COMER DOCES?

Isso acontece. Algumas pessoas com demência passam a preferir alimentos mais doces ou desenvolvem mudanças importantes nas preferências alimentares.

Nesse momento, em vez de entrar em uma guerra — "Você não pode comer isso!" —, vamos pensar em estratégias.

Podemos incorporar sabores naturalmente doces em algumas preparações: frutas, iogurtes, preparações adequadas às condições clínicas. E, principalmente, avaliar por que ele está buscando determinado alimento.

É importante considerar diabetes, obesidade, medicamentos e outras condições de saúde antes de definir mudanças alimentares. Cada paciente precisa ser individualizado.

ELE COME TODA HORA E DIZ QUE NÃO COMEU

Essa situação também pode acontecer. A pessoa pode esquecer que acabou de fazer uma refeição e perguntar novamente: "Quando vamos almoçar?" Ou procurar comida pela casa.

Em vez de responder: "Você acabou de comer!", tente oferecer segurança: "Você já almoçou, está tudo bem. Mais tarde vamos fazer um lanche."

Uma rotina previsível pode ajudar. Deixe disponíveis pequenas opções de alimentos adequados para os intervalos, quando necessário.

E não se esqueça de uma coisa: às vezes, o que parece fome pode ser sede. A desidratação pode ocorrer porque a pessoa não reconhece a sede ou simplesmente esquece de beber.

HIDRATAÇÃO: UM CUIDADO QUE NÃO PODE SER ESQUECIDO

Agora vamos falar da água.

É muito comum a família dizer: "Eu deixo a água do lado dele, mas ele não bebe."

E isso realmente pode acontecer. A pessoa com demência pode não perceber que está com sede, esquecer de beber ou ter dificuldade para pegar o copo e levá-lo até a boca.

Então não basta colocar uma garrafa de água sobre a mesa. É preciso oferecer.

Ofereça várias vezes ao longo do dia. Ofereça junto das refeições. Deixe o recipiente acessível. Observe se ele consegue segurá-lo. Às vezes um copo mais leve, transparente ou de uma cor que contraste com a mesa pode facilitar a visualização e o uso.

NÃO É SÓ ÁGUA QUE HIDRATA

Água é excelente, mas outros líquidos e alimentos também contribuem para a ingestão de líquidos.

Dependendo das condições clínicas e das orientações da equipe, podem ser utilizados leite, bebidas adequadas, sucos, sopas, iogurtes e alimentos com maior quantidade de água.

O importante é observar o consumo ao longo do dia. E existe uma orientação prática que eu gosto muito: ofereça uma bebida sempre que oferecer comida. Isso cria uma associação simples: comer e beber.

COMO SABER SE ELE PODE ESTAR DESIDRATADO?

Fique atento a sinais como: boca ou lábios secos, tontura, redução da frequência urinária e urina mais escura ou com odor mais forte.

Mas atenção: esses sinais não devem ser analisados isoladamente. Uma pessoa idosa com demência pode apresentar confusão ou piora do comportamento por diversas razões.

Se houver uma mudança importante no estado mental, redução significativa da ingestão de líquidos ou sinais de doença, é importante procurar avaliação médica.

E QUANDO ELE COMEÇA A EMAGRECER?

Essa é uma situação que merece atenção. A perda de peso pode acontecer na demência por diversos motivos.

A pessoa pode perder o interesse pela comida. Pode esquecer de comer. Pode ter dificuldade para preparar alimentos. Pode ter dificuldade para mastigar. Pode ter dificuldade para engolir. Pode ficar mais agitada durante as refeições. Pode apresentar alterações do paladar e do olfato. E, em fases mais avançadas, a própria progressão da doença pode alterar a alimentação.

Se existe perda de peso involuntária, não devemos simplesmente dizer: "É do Alzheimer." Precisamos investigar.

UMA ESTRATÉGIA QUE PODE AJUDAR: PEQUENAS REFEIÇÕES

Às vezes, um prato enorme assusta. A pessoa olha e não sabe por onde começar.

Pode ser mais fácil oferecer porções menores, várias vezes ao dia, conforme a necessidade individual.

O NIA recomenda pequenas quantidades e, em algumas situações, refeições mais frequentes ou lanches com maior densidade calórica quando há baixa ingestão.

Isso não significa simplesmente colocar alimentos muito calóricos na dieta. É preciso equilibrar nutrição, preferências, doenças associadas e capacidade de mastigação e deglutição. Quando há perda de peso, pode ser necessária a participação de um nutricionista.

E SE ELE NÃO CONSEGUE MAIS USAR TALHERES?

Isso é muito comum. A pessoa olha para garfo e faca e não consegue mais organizar aquela sequência de movimentos.

Nesse caso, não precisamos concluir: "Ele não consegue mais comer." Podemos adaptar.

Talvez uma colher seja mais fácil. Talvez alimentos cortados em pequenos pedaços. Talvez alimentos que possam ser segurados com as mãos.

Os chamados finger foods, ou alimentos que podem ser consumidos com as mãos, podem ser úteis para algumas pessoas que apresentam dificuldade de coordenação.

E, se houver dificuldade funcional importante, um terapeuta ocupacional pode ajudar a adaptar utensílios, pratos e a própria atividade de alimentação.

DEIXE ELE FAZER O QUE AINDA CONSEGUE

Essa frase é muito importante.

Se ele consegue segurar o copo, deixe. Se consegue levar a colher à boca, deixe. Se consegue escolher entre duas opções, permita que escolha.

Mesmo que demore. Mesmo que faça alguma sujeira. Mesmo que você precise depois limpar a mesa.

Porque existe algo muito maior por trás disso: autonomia. Não devemos transformar uma pessoa que ainda consegue fazer algo em alguém completamente dependente apenas porque é mais rápido fazer por ela.

MAS QUANDO ELE PRECISAR DE AJUDA...

Ajude. Sem pressa. Sem bronca. Sem infantilizar.

Sente-se próximo. Ofereça uma pequena quantidade. Dê tempo para mastigar. Observe. Espere engolir. Depois ofereça novamente.

O NIA recomenda não apressar a pessoa e garantir que ela tenha tempo para mastigar e engolir antes de oferecer outra porção.

Alimentação não é corrida.

UMA QUESTÃO MUITO IMPORTANTE: ENGOLIR

Aqui eu quero chamar a atenção da família.

Em fases mais avançadas da demência, podem surgir dificuldades de mastigação e deglutição, chamadas de disfagia. A pessoa pode permanecer muito tempo mastigando, guardar comida dentro da boca ou apresentar engasgos.

E isso precisa ser levado a sério.

Se você percebe: tosse durante as refeições, engasgos frequentes, voz diferente depois de beber, dificuldade para mastigar, comida acumulada na boca, perda de peso ou infecções respiratórias recorrentes, converse com o médico.

Pode ser necessário avaliar a deglutição com um fonoaudiólogo, profissional capacitado para avaliar e orientar essas dificuldades.

NUNCA ALIMENTE UMA PESSOA SONOLENTA OU DEITADA

Essa é uma orientação de segurança muito importante.

Antes da alimentação, o paciente precisa estar acordado e sentado de forma adequada. Se estiver sonolento, espere e converse com a equipe sobre a melhor estratégia.

A alimentação de uma pessoa sonolenta ou deitada aumenta o risco de engasgo e aspiração. O NIA recomenda que a pessoa esteja sentada e permaneça em posição adequada após a refeição.

E depois da refeição, não é uma boa ideia colocar imediatamente o paciente completamente deitado.

CUIDADO COM A TEXTURA DOS ALIMENTOS

Se existe dificuldade para mastigar ou engolir, talvez seja necessário modificar a textura da alimentação.

Alimentos muito secos, duros ou difíceis de mastigar podem ser problemáticos. Em algumas situações, a equipe pode recomendar alimentos mais macios, triturados ou outras modificações específicas.

Mas atenção: não recomendo que a família simplesmente transforme toda a alimentação em uma dieta pastosa por conta própria. A textura ideal depende da avaliação da deglutição e das necessidades daquele paciente.

É justamente aí que a equipe interdisciplinar faz diferença.

E O USO DE ESPESSANTES?

Essa é outra situação em que precisamos ter cuidado.

Algumas pessoas com disfagia podem precisar de líquidos com textura modificada, mas isso deve ser definido por profissional habilitado após avaliação adequada.

Não existe uma consistência que seja segura para todos os pacientes. Por isso, se existe suspeita de disfagia, procure avaliação.

O AMBIENTE TAMBÉM ALIMENTA

Parece estranho falar isso, mas o ambiente pode fazer uma diferença enorme.

Imagine uma mesa cheia de objetos. Televisão ligada. Pessoas conversando. Telefone tocando. Alguém dando instruções.

O paciente com demência pode simplesmente não conseguir organizar todas essas informações.

Então, experimente: mesa mais simples, menos barulho, televisão desligada, boa iluminação, poucas distrações.

A experiência da refeição pode melhorar quando o ambiente é organizado e tranquilo.

USE CONTRASTE

Outro detalhe interessante: às vezes o paciente simplesmente não enxerga bem o alimento no prato.

Pratos com contraste em relação à comida e à mesa podem facilitar a percepção visual. A Alzheimer's Society sugere utilizar cores contrastantes para tornar alimentos e utensílios mais fáceis de identificar.

Pode parecer uma coisa pequena. Mas, em determinadas situações, uma pequena adaptação muda tudo.

E SE ELE DIZ: "EU NÃO QUERO COMER"?

Primeiro, não entre em confronto.

Pergunte: "Você está sem fome?" Observe. Tente novamente mais tarde. Ofereça uma opção que ele conheça. Talvez uma porção menor. Talvez uma preparação diferente.

E procure entender se existe algum desconforto: dor de dente? Boca seca? Feridas? Constipação? Náusea? Dor? Alteração de medicamento? Problema para engolir? Depressão?

Tudo isso pode interferir no apetite. A alimentação ruim pode ter causas diversas, e algumas são tratáveis.

NÃO FORCE

Essa talvez seja uma das orientações mais difíceis para uma família.

Porque o familiar pensa: "Ele precisa comer!" E é verdade que precisamos cuidar da nutrição.

Mas forçar a alimentação pode aumentar a resistência, o medo e o sofrimento.

O NIA orienta evitar alimentação forçada, especialmente nas fases avançadas, quando a redução do apetite pode fazer parte da evolução da doença.

Precisamos encontrar estratégias. Não travar uma batalha.

E QUANDO ELE NÃO QUER BEBER ÁGUA?

Tente oferecer pequenas quantidades várias vezes ao dia. Não espere ele pedir.

Crie horários. Ofereça junto das refeições. Use o recipiente que ele consegue segurar. Deixe o líquido visível.

Se ele prefere determinado tipo de bebida que seja compatível com sua condição clínica, converse com a equipe sobre como incorporá-la.

Hidratação precisa fazer parte da rotina. Não pode depender apenas da sensação de sede.

UMA ESTRATÉGIA QUE EU GOSTO MUITO

Eu gosto de orientar a família a criar uma espécie de "rotina da bebida".

Por exemplo:

  • Ao acordar → oferecer líquido.
  • No café da manhã → oferecer líquido.
  • Durante a manhã → oferecer novamente.
  • No almoço → oferecer.
  • Durante a tarde → oferecer em intervalos regulares.
  • No jantar → oferecer.
  • Antes de dormir → avaliar se é adequado oferecer, considerando o risco de quedas e a necessidade de urinar durante a noite.

Não precisa transformar isso em uma planilha obsessiva. É apenas uma maneira de lembrar que hidratação precisa acontecer ao longo do dia.

QUANDO A PESSOA ESCONDE OU ESQUECE A COMIDA

Alguns pacientes guardam alimentos em locais inadequados. Podem esconder pão, frutas ou outros alimentos.

Isso pode acontecer por alterações cognitivas e comportamentais.

Em vez de brigar — "Por que você fez isso?" —, tente observar o padrão. Talvez ela tenha medo de ficar sem comida. Talvez tenha esquecido que já comeu. Talvez esteja simplesmente seguindo um hábito antigo.

Compreender a história da pessoa pode ajudar a encontrar estratégias mais adequadas.

E SE ELE TIVER DIABETES?

Aqui precisamos individualizar ainda mais.

Diabetes e demência podem tornar a alimentação mais complexa, porque a pessoa pode esquecer refeições, medicamentos ou até não reconhecer sintomas de alteração da glicemia.

Por isso, não faça mudanças importantes na alimentação ou nos medicamentos sem conversar com a equipe médica. O plano precisa considerar diabetes, pressão arterial, função renal, peso, medicamentos e outras condições.

A IMPORTÂNCIA DO NUTRICIONISTA

Em algumas situações, o nutricionista pode ser um profissional muito importante no acompanhamento.

Especialmente quando existe: perda de peso, baixo apetite, excesso de peso, diabetes, dificuldades alimentares, necessidades nutricionais específicas ou alterações na consistência dos alimentos.

O objetivo não é criar uma dieta impossível. É construir uma alimentação viável para aquela pessoa e para aquela família.

Porque uma dieta perfeita no papel, mas impossível de executar em casa, não funciona.

Se existe suspeita de dificuldade para engolir, o fonoaudiólogo tem papel fundamental.

Ele pode avaliar a deglutição e orientar a família sobre posicionamento, consistência dos alimentos, ritmo da alimentação e outras estratégias de segurança.

E aqui aparece novamente a importância da equipe interdisciplinar: neurologista, nutricionista, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, enfermagem e outros profissionais, de acordo com a necessidade.

Não é exagero. É cuidado individualizado.

NAS FASES MAIS AVANÇADAS

Quando a demência avança, a alimentação pode ficar progressivamente mais difícil.

A pessoa pode perder o interesse pela comida. Pode ter dificuldade para mastigar. Pode apresentar disfagia. Pode comer muito pouco. Pode passar mais tempo sonolenta.

E isso é extremamente doloroso para a família. Porque surge aquela sensação: "Eu preciso fazer alguma coisa."

E, às vezes, a família acredita que precisa alimentar a qualquer custo.

Mas, em fases muito avançadas, precisamos conversar sobre objetivos de cuidado, conforto, segurança e qualidade de vida.

Decisões sobre alimentação artificial ou sonda, por exemplo, são complexas e devem ser discutidas individualmente com a equipe médica, considerando o estágio da doença, os riscos, os benefícios e, principalmente, os desejos e valores da pessoa. A Alzheimer's Society destaca que, em demência muito avançada, alimentação por sonda geralmente não proporciona benefício significativo em conforto, qualidade de vida ou prolongamento da vida.

Isso não significa abandonar o paciente. Muito pelo contrário. Significa mudar o foco: alimentar sem sofrimento, oferecer conforto, cuidar da boca, respeitar limites e preservar dignidade.

QUANDO O PACIENTE ESTÁ COMENDO MUITO POUCO

Não pense imediatamente: "Ele está desistindo." Precisamos avaliar.

Existe dor? Infecção? Constipação? Problema dentário? Depressão? Efeito de medicamento? Disfagia? Alguma alteração metabólica?

É uma mudança recente? É uma tendência progressiva? O paciente está confortável?

Essas perguntas são importantes.

A BOCA TAMBÉM PRECISA DE CUIDADO

Uma boca seca, dolorida ou com problemas dentários pode tornar a alimentação muito difícil.

Por isso, higiene oral adequada e acompanhamento odontológico também fazem parte do cuidado da pessoa com demência.

Às vezes, a família está preocupada porque o paciente não quer comer, mas ninguém percebeu que mastigar está doendo.

NÃO ESQUEÇA DA CONSTIPAÇÃO

Constipação pode causar desconforto, náusea e redução do apetite.

Manter hidratação adequada, atividade física quando possível e alimentação com fibras pode ajudar, mas constipação persistente precisa ser avaliada.

Mais uma vez: olhe para a pessoa inteira. Não olhe apenas para o prato.

UMA FRASE QUE EU GOSTARIA QUE A FAMÍLIA GUARDASSE

"A refeição não precisa ser perfeita. Ela precisa ser possível, segura e humana."

Talvez hoje seu familiar coma pouco. Amanhã coma melhor. Talvez prefira uma determinada comida. Talvez rejeite outra. Talvez precise de ajuda. Talvez consiga comer sozinho.

Nós vamos adaptando.

E PARA VOCÊ, FAMILIAR...

Eu sei que pode ser angustiante ver alguém que você ama mudar a forma de comer.

Você pode pensar: "Eu estou fazendo tudo errado."

Não. Você está aprendendo a cuidar de uma pessoa que está passando por uma doença complexa.

Você não precisa saber tudo. Você precisa observar. Perguntar. Aprender. Adaptar. E procurar ajuda quando necessário.

Não transforme cada refeição em um teste de amor. Seu familiar não precisa comer perfeitamente para você estar cuidando bem dele.

Seu papel é oferecer. Facilitar. Proteger. Acolher. E reconhecer quando é hora de pedir ajuda profissional.

QUANDO PROCURAR A EQUIPE MÉDICA?

Procure avaliação se houver:

  • perda de peso involuntária
  • redução importante da ingestão de alimentos ou líquidos
  • engasgos frequentes
  • tosse durante as refeições
  • dificuldade para engolir
  • comida acumulada na boca
  • alteração da voz após beber
  • febre ou infecções respiratórias recorrentes
  • desidratação
  • sonolência importante ou uma mudança súbita no comportamento alimentar

Esses sinais podem indicar problemas que precisam de investigação.

UMA MENSAGEM FINAL DO NEUROLOGISTA

Quando cuidamos de uma pessoa com demência, é muito fácil olhar para aquilo que ela não consegue mais fazer.

Mas eu gostaria que você tentasse olhar também para aquilo que ela ainda consegue fazer.

Talvez ela ainda consiga segurar o copo. Então deixe que segure. Talvez consiga escolher entre duas frutas. Então pergunte. Talvez ainda consiga levar a colher à boca. Então permita. Talvez não consiga mais usar garfo e faca. Então adapte. Talvez não consiga beber água sozinha. Então ofereça. Talvez precise de uma alimentação modificada. Então vamos procurar orientação.

Cuidar não é fazer tudo pela pessoa. Cuidar é ajudá-la a fazer aquilo que ainda consegue fazer. E quando ela não conseguir mais, estaremos ali para ajudar com respeito.

Porque, no final, alimentação e hidratação não são apenas sobre calorias, proteínas ou quantidade de água. São sobre conforto. São sobre segurança. São sobre autonomia. São sobre memórias. São sobre família. E, principalmente, são sobre dignidade.

Se você está cuidando de alguém com demência e percebe que a alimentação ou a hidratação está mudando, não carregue essa preocupação sozinho. Converse com o neurologista que acompanha o paciente. Quando necessário, envolva nutricionista, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e os demais profissionais da equipe.

Quanto mais cedo entendermos a dificuldade, mais cedo podemos pensar em estratégias.

E eu gostaria que você terminasse este texto com uma ideia simples: não é preciso vencer todas as dificuldades de uma vez.

Uma pequena adaptação hoje pode tornar o almoço de amanhã mais tranquilo. Um copo oferecido no momento certo pode evitar uma desidratação. Uma comida familiar pode despertar o prazer de comer. Uma cadeira bem posicionada pode tornar uma refeição mais segura. Uma palavra calma pode fazer uma grande diferença.

Cuidar de alguém com demência é feito de pequenas atitudes. E, muitas vezes, são justamente essas pequenas atitudes que tornam o caminho mais leve para quem está doente e para quem cuida.

Dr. Marcelo Zalli — Médico Neurologista


IMPORTANTE

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individual. Necessidades de alimentação, hidratação e principalmente alterações de deglutição devem ser avaliadas de acordo com as condições clínicas de cada pessoa. Não modifique sozinho a consistência dos alimentos, medicamentos, restrições de líquidos ou suplementos nutricionais sem orientação profissional.

FONTES

  • National Institute on Aging — Tips for Caregivers: Helping People With Alzheimer's Disease Eat Well — orientações sobre alimentação, autonomia, pequenas refeições, perda de apetite e prevenção da alimentação forçada.
  • National Institute on Aging — Care in the Last Stages of Alzheimer's Disease — informações sobre alimentação nas fases avançadas e dificuldades de deglutição.
  • Alzheimer's Society — Eating and drinking — informações sobre alterações alimentares, mastigação, deglutição e adaptações.
  • Alzheimer's Society — Drinking, hydration and dementia — orientações sobre hidratação e sinais de desidratação.
  • Alzheimer's Society — Supporting someone with dementia to eat and drink — estratégias para tornar as refeições mais confortáveis e positivas.

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Escrito e revisado por

Dr. Marcelo Zalli

Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326

Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas

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