Enxaqueca menstrual: por que a dor piora no ciclo e como tratar
A enxaqueca menstrual afeta mulheres na período pré-menstrual. Entenda a relação entre estrogênio e enxaqueca, critérios diagnósticos e estratégias de tratamento profilático.

A enxaqueca menstrual é uma forma específica de enxaqueca diretamente relacionada às flutuações hormonais do ciclo feminino. Acomete milhões de mulheres brasileiras e, diferentemente da enxaqueca comum, tem momentos previsíveis de aparecimento e características que exigem uma abordagem terapêutica diferenciada.
O que é enxaqueca menstrual?
A enxaqueca menstrual ocorre em associação com a queda do estrogênio que antecede a menstruação. Define-se como enxaqueca menstrual pura quando as crises acontecem exclusivamente no período perimenstrual (de 2 dias antes a 3 dias depois do início do fluxo), em pelo menos dois de três ciclos.
Existe também a enxaqueca menstrual-relacionada, em que as crises ocorrem no período perimenstrual, mas também em outros momentos do ciclo. Esta forma é mais comum.
Por que a dor piora no ciclo?
O estrogênio tem um efeito protetor sobre o cérebro e sobre o sistema trigeminovascular, envolvido na enxaqueca. Quando os níveis de estrogênio caem abruptamente — o que acontece logo antes da menstruação —, essa proteção diminui e a vulnerabilidade à enxaqueca aumenta.
É importante destacar que a enxaqueca menstrual não é causada pela menstruação em si, mas pela variação hormonal que a antecede.
Características da enxaqueca menstrual
As crises menstruais tendem a ser:
- Mais intensas do que as crises não menstruais
- Mais prolongadas — podem durar dias
- Mais resistentes ao tratamento de crise
- Mais acompanhadas de náusea e vômito
- Sem aura (a aura é menos comum na enxaqueca menstrual)
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico e depende de um diário de cefaleia detalhado, onde a mulher registra:
- Dias de dor de cabeça
- Intensidade
- Dia do ciclo menstrual
- Uso de medicação
Com pelo menos 3 ciclos registrados, é possível identificar o padrão menstrual e confirmar o diagnóstico.
Tratamento
Tratamento da crise aguda
- Triptanos: a primeira linha. Alguns triptanos têm eficácia comprovada especificamente para enxaqueca menstrual
- AINEs (naproxeno, ibuprofeno) — podem ser especialmente úteis por também reduzirem a dor pélvica
- Combinações de triptano com AINE podem ser mais eficazes
Tratamento preventivo perimenstrual (miniprofilaxia)
Para mulheres com crises previsíveis no período menstrual, a miniprofilaxia é uma estratégia excelente:
- Naproxeno: iniciado 2 dias antes da menstruação e mantido por 5-7 dias
- Triptanos de longa duração (frovatriptano, naratriptano): iniciados antes da menstruação
- Suplementação de magnésio: pode ajudar na prevenção
Esta abordagem evita o uso contínuo de medicação, focando apenas no período de risco.
Tratamento preventivo contínuo
Quando as crises não se limitam ao período menstrual ou são muito frequentes:
- Betabloqueadores (propranolol)
- Anticonvulsivantes (topiramato)
- Antidepressivos (amitriptilina, venlafaxina)
- Anticorpos monoclonais anti-CGRP — especialmente úteis em mulheres com enxaqueca menstrual refratária
- Toxina botulínica — se houver cronificação
Terapia hormonal
Em casos selecionados, pode-se considerar:
- Anticoncepcionais combinados — podem estabilizar os níveis hormonais e reduzir crises. Evitar pílulas com pausa, que causam queda de estrogênio
- Estrogênio transdérmico perimenstrual — para repor o estrogênio que cai antes da menstruação
Atenção: anticoncepcionais hormonais não são indicados para mulheres com aura, devido ao risco aumentado de AVC.
Enxaqueca menstrual e outros momentos hormonais
A enxaqueca hormonal não se manifesta apenas na menstruação. Outros momentos de flutuação hormonal podem desencadear crises:
- Ovulação: algumas mulheres têm crises na ovulação
- Gravidez: muitas melhoram, especialmente no 2º e 3º trimestres
- Pós-parto: a queda abrupta do estrogênio após o parto pode desencadear crises
- Perimenopausa: a instabilidade hormonal piora a enxaqueca
- Menopausa: tende a melhorar após a menopausa natural
Conclusão
A enxaqueca menstrual é uma condição real, com causa identificável e tratamento disponível. Não é necessário aceitar que "toda menstruação tem que ser assim". Com o diário de cefaleia, identificação do padrão e estratégias como a miniprofilaxia, é possível reduzir significativamente o impacto das crises. Se você sofre com enxaqueca no período menstrual, procure um neurologista especializado em cefaleias para um plano terapêutico individualizado.
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Escrito e revisado por
Dr. Marcelo Zalli
Neurologista · CRM-SC 17333 · RQE 13326
Pós-graduado em Demências e Doenças Neurodegenerativas
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Consultório em Balneário Camboriú (Menara Medical Center — Ariribá) e em Itajaí (Petrus Centro Médico — Centro), no litoral de Santa Catarina.
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